São Paulo, SP, 24/09/2019
 
17/09/2013 - 07h53m

Adaptação de rock com clássicos tem narração do músico Kid Vinil

Agência Hoje* 
Reprodução
Kid Vinil fará narração do espetáculo "Rock Sinfônica" em Tatuí, interior de São Paulo
Kid Vinil fará narração do espetáculo "Rock Sinfônica" em Tatuí, interior de São Paulo

Tatuí, São Paulo (Agência Hoje) - A história do rock contada através de composições adaptadas para a Banda Sinfônica de São Paulo está na programação cultural de Tatuí, cidade conhecida como a capital da música brasileira, distante 131 quilômetros da capital. O espetáculo, chamado de Rock Sinfônica, será apresentado ao público no dia 28, às 20h30, em edição única.

A narração ficará sob a responsabilidade do músico e jornalista Kid Vinil e os acordes de guitarra pela banda Dr. Sin. Os arranjos são de Alexandre Dalóia. O resultado do trabalho é a criação do Rock Sinfônica, muito comentado nos meios culturais de todo Estado e gerando grande expectativa.  

Na semana passada, o site do Instituto Pensarte publicou uma entrevista feita pelos profissionais da Banda Sinfônica com o músico Kid Vinil, onde ele fala sobre o projeto Rock Sinfônica e avança em comentários e opiniões sobre o próprio rock, fala das dificuldades de ser músico nos dias de hoje e aponta as saídas.

Veja, na íntegra, a entrevista de Kid Vinil para a Banda Sinfônica:

Banda Sinfônica – Que tal trabalhar com uma banda sinfônica e uma banda de rock juntos? Quais os desafios dessa união?

Kid Vinil – Quando eu, Sadao e o Dalóia começamos a conversar sobre o projeto, há mais ou menos dois anos, logo pensei que construiríamos um repertório mais voltado ao rock progressivo, algo com Pink Floyd e coisas assim. Mas daí o grande lance foi contar um pouco da história do rock.

Convidamos o Dr. Sin porque esta é uma banda com músicos experientes, competentes para encarar o projeto. A Banda ficou como uma espécie de apoio que dá força ao conjunto todo.

Sobre o repertório, já existe certa facilidade em relação a essa adaptação entre os estilos. Kashimir, do Led Zepellin, por exemplo, teve uma intenção sinfônica na sua composição. Assim como Changes, do Black Sabbath, que foi escrita no piano, ou mesmo Rock Around the Clock, do Bill Haley, que tem toda uma questão com o jazz.

Mas, sim, apanhamos muito, Banda Sinfônica, Dr. Sin e eu, até chegarmos onde queríamos. O maestro Sadao foi uma figura indispensável nesse processo todo e, principalmente, durante as apresentações. Imagine comandar duas bandas e eu ao mesmo tempo? Todos tiveram que se adaptar aos comandos e ao tempo do maestro. Foi uma experiência muito interessante.

BS- Até agora, qual o momento mais marcante dessa parceria?

KV – Na primeira parte do concerto, quanto tem Elvis Presley, Little Richard e Chuck Berry é uma coisa muito louca. Ficamos com ares de big band! Também é incrível quando tocamos Kashimir! Ou quando tem Ramones, e os metais potencializam tudo. No final, fechamos com um chamado à Beethoven tocando Roll Over Beethoven, do Chuck Berry. Este é um momento muito bacana!

BS – De que forma o público recebe o Rock Sinfônica?

KV – Nosso primeiro concerto, na Sala São Paulo, parecia um show de rock de verdade. Pelo menos metade do público era rockeiro, dava para ver pelas camisetas de bandas e tal. O público do Dr. Sin, que é muito fiel, que curte rock’n’roll mesmo, estava presente. Os ingressos esgotaram rapidamente; a mídia também gostou muito de noticiar o nosso trabalho e no Facebook e no Twitter a coisa bombou! Recebemos vários comentários positivos, foi bem legal.

Acho que isso acontece porque esse é um projeto único. Várias bandas e vários conjuntos sinfônicos já orquestraram canções de rock, mas ninguém nunca resolveu contar a história do rock’n’roll dessa forma. E esse é show que vai cativando o público. Ele começa calmo, com toques de big band. Daí vai pegando o público aos poucos.

BS – Quem curte rock não ouve música erudita e vice-versa? Essa diferença existe?

KV – Essa diferença é lenda. Sempre, desde moleque, frequentei os concertos da Sinfônica. E tenho banda de rock, vivo disso. Caras como Paul McCartney, que tiveram uma boa formação erudita, foram para o rock’n’roll e, de certa forma, aproximaram muito esses dois universos.

BS – O rock’n’roll ainda é símbolo de transgressão, de liberdade?

KV – O rock atravessou décadas e passou por muitas transformações. Ele continua transgressor, mas um transgressor de acordo com sua época.

No Brasil, talvez ele não faça mesmo muito sentido, porque este não é o país do rock. Tem muita gente que curte, mas os jovens ingleses e norte-americanos crescem ouvindo rock e, por incrível que pareça, tendo ele como única maneira de se expressar. Só que agora a força desse movimento se expressa no rock alternativo, no lado-b da música.

Acho que o rock continua fazendo sentindo sim, porque ele nunca fica velho. Ele existe, é um retrato de sua época, um quadro que reflete a consciência musical. Ainda existem jovens interessados.

BS – Para quem está em início de carreira, o cenário musical nunca esteve tão complexo. O que você diria para um músico ou uma jovem banda?

KV – O cenário mudou muito. Nos anos 80, as gravadoras batiam de porta em porta atrás da divulgação de um músico. Mesmo com todos os abusos que as bandas sofriam, existia alguém que se preocupava com essas questões. Hoje em dia, o formato da música mudou, não existem mais gravadoras e, para piorar, parece haver uma eterna briga da máfia musical. Agora é cada um que se vire!

A mídia abandonou o rock, é totalmente manipulada. Esse pessoal novo que, acredite, surge diariamente, acaba ocupando as cenas alternativas e independentes. O cara começa com um vídeo no YouTube e, por sorte, consegue 40 mil visualizações. Pronto! Vira sucesso nacional. Só que esse mesmo cara tem que se sujeitar a produzir algo mais comercial. No Brasil, você precisa virar artista de Faustão para conseguir algum reconhecimento. E isso é muito ruim.

Sinceramente, eu não saberia aconselhar ninguém. Com todos os meus anos de experiência, não sei o que vai acontecer. Tenho várias músicas novas e de boa qualidade, mas duvido que elas virem trilha sonora de novela, como Tic Tic Nervoso ou Comeu.

BS – Como você vê a regulamentação do processo de arrecadação e distribuição de direitos autorais?

KV – Direito autoral sempre foi um problema no Brasil. Como a indústria cultural matou o CD, o artista vive agora da música ao vivo. Só que o cara não tem nome e ninguém quer fazer show com ele. O pessoal da década de 80, que ainda sobreviveu e conquistou certa credibilidade, faz como pode. Vivemos desse resgate do passado e do respaldo que os nossos antigos sucessos possuem. Fico com pena da nova geração. Nasceram na geração errada!

Agora, sobre o ECAD, essa empresa sempre levantou suspeitas. Ele nunca foi distribuído corretamente. Talvez melhore, mas acho que o ECAD não é a principal questão. O enrosco mesmo está na mídia. O EDCAD diz respeito a direitos performativos. Não adianta nada o artista ter 500 músicas cadastradas e não ter nenhum show. Se a grande mídia desse mais valor para quem de fato está produzindo algo decente, não teríamos esse tipo de problema.

BS – É possível viver em função da música no Brasil?

KV – Acho que sim (risos). A questão é não se vender, é batalhar por um espaço.

* Com informações da Banda Sinfônica

Hoje São Paulo

© 2012 - Hoje São Paulo - Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por ConsulteWare e Rogério Carneiro