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06/11/2013 - 16h53m

Alexandre Padilha, incentivado por Lula, quer ser governador

Agência Hoje/Daniel Lopes 
Agência Brasil/Arquivo
Sempre em atividade, Alexandre Padilha aplica vacinas, recebe médicos em aeroportos, visita hospitais e atende todos com um sorriso
Sempre em atividade, Alexandre Padilha aplica vacinas, recebe médicos em aeroportos, visita hospitais e atende todos com um sorriso

São Paulo (Agência Hoje) - O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, evita falar abertamente que é candidato a governador de São Paulo nas eleições de outubro de 2014. Discreto, ele se esforça, mas não consegue conter um leve sorriso de satisfação quando ouve citações do seu nome e recebe tapinhas nas costas, em solenidades e inaugurações.

Formado em Medicina pela Unicamp, com 42 anos de idade e uma passagem bem sucedida pela Funasa em Santarém, cidade de porte médio no interior do Pará, Padilha é petista de carteirinha. Assumiu o Ministério em 1º de janeiro de 2011, como sucessor de José Gomes Temporão e de lá para cá segue um caminho de fidelidade inquestionável à presidente Dilma Rousseff e ao seu padrinho político e principal incentivador, Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Lula.

A exemplo do que aconteceu com Fernando Haddad, outro personagem tirado da cartola por Lula, e hoje prefeito da cidade de São Paulo, ganhou precocemente o apelido de "O Poste". É a forma que a oposição encontrou para ironizar e desconstruir a imagem do ministro. Na realidade, ele foi registrado como Alexandre Rocha Santos Padilha, nascido no dia 14 de setembro de 1971, na cidade de São Paulo, é médico de profissão e petista de coração.

Ao longo da carreira estudantil, costuma falar com entusiasmo sobre os tempos em que foi coordenador geral da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina, em 1990 e depois coordenador do DCE da Unicamp. O passo seguinte foi o Diretório Estadual do PT em São Paulo, entre 1991 e 1993, onde conviveu com técnicos, administradores e políticos.

Política 24 Horas

A grande lição de Alexandre Padilha veio ainda em 1989, quando participou da coordenação nacional da campanha de Lula à presidência da República. Tinha apenas 18 anos de idade, era estudante, mas já pensava em política 24 horas por dia. Sem descuidar dos estudos e da Faculdade, também esteve presente nas campanhas eleitorais de Lula em 1989 e em 1994.

A primeira experiência profissional pra valer, no entanto, só chegou no ano 2000, quando ele tinha 29 anos de idade e mesmo com o diploma de medicina de uma das universidades mais prestigiadas do país, a Unicamp, aceitou o cargo de coordenador de Projetos de Pesquisa, Vigilância e Assistência em Doenças Tropicais no Pará, na cidade de Santarém, a 2.925 quilômetros de São Paulo. O município enorme, de 22.887 quilômetros quadrados e 280 mil habitantes, conquistou o médico paulista.

Em quatro anos, Padilha conheceu os problemas do brasileiro que vive no interior e sofre com a falta de serviços de qualidade na educação e principalmente na saúde. Mesmo sendo coordenador de um setor estratégico, parte de um programa da Organização Mundial de Saúde, ele passou por situações de dificuldade e precisou ser muito criativo para superá-las.

Em troca da dedicação, Alexandre Padilha é um nome reconhecido e respeitado na cidade, independentemente do partido político, do grau de escolaridade e do nível social do morador que for consultado. Eleitor em Santarém, o atual ministro só concordou em mudar seu domicílio eleitoral em junho passado, quando aceitou sair candidato a governador de São Paulo.

Ministro da Cota Lula

No primeiro mandato de Lula, em 2004, Padilha assumiu o cargo de diretor de Saúde Indígena da mesma Funasa onde ele começou a carreira de médico. Já no ano seguinte, em 2005, foi trabalhar na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, primeiro como assessor e em seguida como ministro. Ficou até 2010, sem se meter em confusões sérias, apesar de transitar em uma área extremamente delicada, cheia de armadilhas políticas.

De estilo simpático, discreto, seguiu as orientações do padrinho Lula e assumiu o Ministério da Saúde como "ministro da cota Lula". Bem recebido por Dilma, aos poucos foi ganhando a confiança da presidente-eleita. Nem mesmo as denúncias de que tinha cometido irregularidades na Funasa, em 2004, quando foi diretor de Saúde Indígena, abalaram seu prestígio.

Além do mais, as propaladas irregularidades em convênios entre a Funasa e a Universidade de Brasília existiram de fato, mas tinham sido cometidas em administrações anteriores, quando ele não estava na diretoria. Mais recentemente, em junho, novas divergências, agora com a Associação Médica Brasileira e o poderoso Conselho Federal de Medicina.

Médicos Estrangeiros

Acostumado a viver e trabalhar em regiões inóspitas, onde a presença de um médico era uma raridade, Alexandre Padilha percebeu o quanto era importante oferecer uma assistência de qualidade à população mais pobre. Além da satisfação pessoal de atender as pessoas, a consciência política de que seria possível melhorar o país foi a grande motivação. Como retorno, o agradecimento eterno de homens e mulheres simples que se sentiam curados e aliviados.

Com base nessa experiência pessoal rica, o médico abraçou a causa do atendimento médico de qualidade em todos os 5.564 municípios brasileiros. E como fazer isso? Estudante de medicina em uma universidade de ponta no Estado mais rico da federação, ele sabia que seria difícil convencer um número grande de profissionais capazes de aceitar o trabalho em pequenas cidades do interior do Nordeste, da Amazônia, ou mesmo na periferia dos grandes centros.

Alguém lembrou que entre 1999 e 2003, o Estado do Tocantins tinha feito uma experiência muito bem sucedida com a contratação de médicos cubanos que aceitaram trabalhar em pequenas comunidades. Na época também houve reação de entidades, mas a tolerância era maior e os próprios moradores, satisfeitos, ficaram ao lado dos estrangeiros.

A ideia de criar um programa específico, a nível nacional, foi uma consequência natural. Convencido de que tinha encontrado o caminho, o ministro levou o assunto a Dilma e conseguiu seu apoio e também o de Lula. Todos viam ali, a chance de resolver o problema que mais causava reclamações no Governo, o atendimento médico de qualidade para as populações de baixa renda, moradores de cidades isoladas, de favelas e de bairros da periferia.

A visão da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina era outra. Para as entidades, o problema da eventual falta de atendimento no Brasil existia pelas condições de trabalho ruins e a falta de infraestrutura em cidades, hospitais e postos de saúde. Nunca pela ausência de profissionais. No início, o cavalheirismo ainda prevalecia, mas aos poucos a postura mudou e as partes passaram a discutir, até chegar às barras dos tribunais.

Munido de pesquisas, o Governo sabia que a população, sempre interessada em obter bom atendimento na área de saúde, apoiava o Programa. Em junho de 2013, a Associação Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina declararam o médico e ministro Alexandre Padilha "persona non grata", acusando-o de defender a importação de médicos estrangeiros sem se submteter ao Revalida, um exame rigoroso que comprova a qualificação do profissional.

Candidato Forte

A quebra de braço deve continuar por muito tempo, mas a vantagem do Governo em termos de apoio popular é indiscutível. Existem problemas pontuais, mas é cada vez maior a aceitação dos médicos estrangeiros entre a população de baixa renda, desacostumada da presença de profissionais em pequenos postos de saúde. Para a maioria, pouco interessa se eles vieram de Cuba, da Espanha ou da Noruega. Mais importante é que atendam, digam qual é a doença e passem o remédio.

Quantos votos Alexandre Padilha vai ganhar com o Programa Mais Médicos ninguém sabe dizer ainda. Mas é certo que a exposição fortalece a sua posição e se nada de grave acontecer até a época das eleições, ele se tornará um candidato bastante competitivo. "O Padilha pode ser candidato a governador em qualquer Estado do Norte ou Nordeste que ele ganha", comenta José Cícero da Silva, de Quipapá, Pernambuco, hoje morando em São Paulo. "Aqui é mais difícil, o Geraldo é muito bom, mas mesmo assim acho que ele leva. Eu mesmo e a mulher vamos votar nele, os filhos estão pensando".

Até mesmo para as raposas políticas da oposição, Alexandre Padilha deve ser considerado um candidato forte ao Governo de São Paulo, capaz de fazer frente ao PSDB, ao PMDB e ao PSD, para falar em apenas três dos pretendentes ao cargo. Ninguém quer repetir o erro cometido no caso de Fernando Haddad durante a campanha para prefeito no ano passado.

Escolhido a dedo por Lula, com reações até mesmo dentro do PT e chamado de "poste" pela oposição, ele começou com 3% nas intenções de voto das principais pesquisas eleitorais e ganhou terreno pacientemente, até terminar como o prefeito eleito da maior cidade da América Latina. Hoje faz um trabalho de resultados, onde a periferia tem prioridade absoluta. É outro seguidor de Lula que fará por Padilha tudo o que o ex-presidente pedir. Será peça fundamental na campanha.

Haddad venceu na cidade de São Paulo superando uma hegemonia de mais de 20 anos do PSDB. A rejeição dele era muito baixa, a presença como ministro da Educação ajudou e a inteligência política de Lula foi decisiva. A eleição mostrou a eficiência do PT como partido político e ao mesmo tempo a tendência dos governantes de subestimarem os adversários.   Quem conhece política diz que, após a conquista da Prefeitura, o caminho para o Governo ficou mais fácil.

Com Alexandre Padilha a situação pode se repetir. Os acordos políticos entre partidos sempre ajudam, mas está claro que a cada dia os eleitores, verdadeiros donos dos votos, se desapegam dos costumes de anos atrás e se tornam independentes, escolhendo seus próprios caminhos. Hoje, está valendo mais o que os candidatos fazem do que o que dizem.

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