São Paulo, SP, 17/11/2019
 
22/10/2013 - 09h28m

Artigo 15 - Alimentação saudável aliada a prevenção do câncer

Agência Hoje/Dra. Silvia Regina Graziani  

Artigo escrito pela Dra. Silvia Regina Graziani, CRM 56.925 *

O desenvolvimento do Câncer depende de muitos fatores. Um deles, e talvez o mais estudado, é a correlação com a alimentação. Em muitas culturas observamos que os hábitos alimentares, apesar de serem muito diferentes, têm como conhecimento comum saber diferenciar o que faz bem e o que pode levar a danos ao organismo.

Está bem estabelecido que a ingestão de gorduras é diretamente relacionada ao risco de doença cardiovascular como Infarto do Miocárdio, e a ingestão exagerada de açucares com o desenvolvimento da intolerância à glicose e do Diabetes tipo II.Em oncologia também se estuda a influência de alimentos no desenvolvimento do câncer, bem como a influência de determinadas dietas que auxiliam no período de quimioterapia.

Incialmente discutiremos os alimentos que podem levar ao desenvolvimento do Câncer como fator ambiental na carcinogênese.

ALIMENTOS MUTAGÊNICOS:

Maus hábitos alimentares estão diretamente relacionados com o desenvolvimento de muitas doenças, entre eles o consumo de alimentos de preparo rápido como as fast foods. Alguns tipos de alimentos são capazes de causar uma lesão na célula, fazendo com que ela perca o controle da morte celular programada e se transforme em um tumor maligno.

Vários desses alimentos podem e devem ser cortados da dieta.

Alimentos: Linguiças, salsichas, bacon e peito de peru

Substrato mutagênico: Nitritos e nitratos

Local do tumor: Estômago

Alimentos: Ricos em gorduras como carnes vermelhas, frituras, molhos com maionese, leite integral, presunto,

mortadelas

Substrato mutagênico: Gorduras saturada

Local do tumor: Tumores do trato digestivo

Alimentos: Picles, salsichas, embutidos e enlatados

Substrato mutagênico: nitrosaminas

Local do tumor: Câncer gástrico

Alimentos: Defumados e churrascos

Substrato mutagênico: Alcatrão proveniente da fumaça do carvão*

Local do tumor: Câncer de estomago e pulmão

Alimentos: Carne de sol, charque de peixes salgados

Substrato mutagênico: sódio

Local do tumor: Câncer gástrico

Alimentos: Grãos e cereais armazenados em locais úmidos

Substrato mutagênico: Contaminação pelo fungo Aspergilus Flavus**

Local do tumor: Câncer no fígado

Alimentos: Refrigerantes do tipo Cola, cerveja, achocolatados, molho curry e vinagre

Substrato mutagênico: 4-metinilizadol(4-MI) ou corante caramelo

Local do tumor: Não há comprovação de desenvolvimento de câncer em seres humanos, mas recomenda-se o consumo com moderação

*A fumaça proveniente da queima do carvão é semelhante à fumaça do cigarro.

**Cereais e grão armazenados em locais úmidos propiciam a colonização de um fungo denominado Aspergilus Flavus, que produz a aflatoxina, uma substância cientificamente comprovada como agente cancerígeno causador de Câncer no fígado.

Como é o caso reportado por Steavens e cols. Em 1960, na Inglaterra sobre a contaminação de amendoim que alimentava gansos para a produção de patê de fígado (Foie Gras). Ao sacrificar esses animais percebeu-se que o fígado desses animais estava repleto de nódulos, e quando foi feita a analise desses nódulos foi constatado tratar-se de carcinoma de fígado. Assim foi estabelecida a correlação entre a infecção pelo Aspergilus e o desenvolvimento do Câncer de Fígado.

Outro fator importante a ser considerado é o preparo dos alimentos, pois este também influencia no desenvolvimento do Câncer.

O uso de sal no preparo de alimentos acaba por aumentar os níveis de sódio.

A Organização Mundial de Saúde recomenda o consumo máximo de 5 gramas de sal por dia, que equivale a uma tampinha de caneta cheia.

A fritura também é outro fator e quando for fritar ou grelhar carnes na brasa, as temperaturas elevadas levam a formação de compostos capazes de levar a mutação das células do trato digestivo, aumentando os risco de desenvolvimento de câncer de intestino e reto.

Alimentos pobres em fibras e ricos em gorduras com altos níveis calóricos como hambúrguer, batata frita e bacon, o qual ao serem ingeridos com pouca quantidade de fibras, faz com que o bolo alimentar permaneça tempo maior em contato com o intestino e este fator favorece a exposição dos agentes mutagênicos no intestino e aumentam o risco de câncer digestivo.

Estudos do InCa, em diversas regiões do pais, realizados em 2010, o qual entrevistou 54367 pessoas a respeito do padrão alimentar concluiu que os brasileiros apesar de consumir mais verduras e frutas, continuam comendo muita carne gordurosa(75% dos entrevistados), e também optam por alimentos práticos como comidas semiprontas, muito menos nutritivas.

Outro fator a se considerar é a informação de baixa ingestão de fibras.

O consumo de gorduras é maior nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, locais que a incidência de câncer de mama é muito maior, comparado com as regiões Norte e Nordeste.

Tumores relacionados a hábitos alimentares:

1- Câncer de Intestino

O consumo maior de alimentos industrializados e menor consumo de fibras associado a baixa ingestão de líquidos e ao sedentarismo que tem uma influencia direta no ritmo intestinal.

A constipação crônica que corresponde a três ou menos evacuação por semana, por três meses é um sinal de alerta e deve-se procurar um medico.

Segundo estudos coordenado pelo InCa a adoção de uma dieta balanceada com frutas, legumes e muita fibra, associada a pratica de atividade física como caminhadas curtas, três vezes por semana pode reduzir o desenvolvimento em 37% as chances de desenvolver o de Câncer de intestino.

Dados publicados na renomada revista Epidemiologia do Câncer e Prevenção, após a avaliação de hábitos alimentares em 70000 pessoas que ingerem todos os tipos de alimentos, afirmam que a adoção de dieta baseada em legumes, frutas e fibras reduzem em 34% as chances de tumores no intestino, mama, ovário e útero.

Dicas de Prevenção:

-alimentação rica em legumes e frutas e principalmente fibras.

2- Câncer de Estômago

O consumo de alimentos pobres em vitaminas A e C associados ao alto consumo de alimentos enlatados, defumados e com conservantes esta associado ao maior risco de desenvolvimento de Câncer de estomago.

A infecção pela bactéria Helicobacter Pylori, que é encontrada na água não tratada e em alimentos contaminados.

Esta bactéria esta diretamente relacionada ao desenvolvimento de Linfoma Gástrico e Carcinoma de Estômago, estando presente em uma grande maioria dessas doenças.

Esta bactéria também esta associada a quadro de gastrite e ulcera gástrica.

Dicas de Prevenção:

-alimentação rica em legumes e frutas

-uso de frutas cítricas como laranja, mexerica, toranja e tâmara, que são ricas em vitaminas A e C

3- Câncer de Mama

O consumo de alimentos ricos em gorduras saturadas parece estar associado a maior incidência desta patologia, que é o tumor mais frequente em mulheres.

No ano de 2012 o Instituto Nacional do Câncer de Washington nos Estados Unidos, publicou uma matéria a respeito do consumo de laticínios analisados em 2000 mulheres, no período de 12 anos.

A conclusão deste estudo foi baseada na maior incidência de câncer de mama em mulheres que consomem uma ou mais porções deste tipo de alimento ao dia e que apresentaram um risco aumentado em 64%.

Dicas de Prevenção:

-alimentação rica em legumes e frutas

-alimentos a base de soja, estudos chineses apontam a redução em 25% de desenvolver Câncer de mama em mulheres chinesas que consomem regularmente soja

4- Câncer de Próstata

O consumo de carne vermelha, rica em gordura saturada aumenta as chances de desenvolvimento de Câncer de Próstata, principalmente em homens com mais de 65 anos.

Dicas de Prevenção:

-alimentação rica em legumes e frutas ricas em Licopeno como cenoura, tomate, mamão, melancia e goiaba.

-usar cebola e alho nos temperos

-comer porções diárias de castanhas e nozes e sementes de linhaça

Alimentos Antioxidantes: previnem o desenvolvimento do Câncer?

Há muitas duvidas em relação a ação dos alimentos antioxidantes como preventivos do desenvolvimento do câncer.

Em artigo publicado na renomada revista New Scientist (Open Biol, 3, 120144, 2013)., o vencedor do premio Nobel de 1962, James Watson(ganhou o premio Nobel de medicina ao descrever a dupla hélice do DNA), o autor sugere que a ingestão de frutas vermelhas associadas a outros alimentos levariam ao aumento da incidência de Câncer de Diabetes do tipo II.

Outro estudo experimental com o uso do antioxidante vitamina E com a finalidade de prevenir o Câncer de intestino foi negativo e interrompido, pois nos usuários de suplementação de vitamina E a incidência de Câncer de Próstata foi maior que os que não utilizaram o suplemento(Food Research International ;44 :902–910, 2011).

Recomendações Importantes para uma alimentação saudável:

Dicas da Nutricionista Eliane R. V. Santos CRN 15939

-Não deixe de fazer nenhuma refeição. Faça no mínimo três refeições ao dia:

-Café-da-manhã, almoço e jantar

-controle a quantidade de sal e elimine temperos prontos no preparo dos alimentos. Use sempre temperos naturais como salsa, cebolinha, cebola, alho, orégano, manjericão, coentro, limão, hortelã – use a vontade.

-prepare os alimentos utilizando pouco óleo e de preferencia aos vegetais

-evite o consumo excessivo de café, no máximo ingerir três xicaras ao dia (pequena)

-acrescente a alimentação alimentos ricos em fibras como aveia, trigo integral, farelo de trigo, feijão, lentilha, frutas, verduras e legumes que ajudam no funcionamento do intestino e reduzem o colesterol

-utilize os alimentos ricos em colesterol e com gordura saturada com moderação como manteiga, leite, iogurtes integrais, queijo amarelo, gema de ovo, creme de leite, leite de coco, banha, bacon, pele de frango e carnes gordurosas.

Prefira alimentos ricos em gorduras insaturadas com menor teor de colesterol e mais saudáveis como: leite desnatado, maionese sem gema de ovo, margarinas, óleos vegetais como de girassol, canola, azeite de oliva, iogurte desnatado, queijo branco, ricota, cottage e creme de leite light

-controle o consumo de frituras, embutidos, enlatados, refrigerantes, bebidas alcoólicas, açucares e doces.

-consumir verduras e legumes a vontade

-consumir frutas variadas cerca de 5 vezes ao dia

-mastigue bem os alimentos (pelo menos 30 vezes)

-procure variar sempre o cardápio, teste novas receitas

Dicas para o preparo dos alimentos:

-para o preparo de alimentos quentes prepara a temperatura mínima de 780 e para resfrias, temperatura abaixo de 190

-cozinhe as carnes totalmente, não deixe áreas rosadas

-descongele carnes, peixes e aves na geladeira ou no micro-ondas.

Não recongele nunca.

-não deixe alimentos perecíveis fora da geladeira por mais de 2 horas.

-preparações com ovos, cremes ou maionese não devem permanecer fora da geladeira por mais de 1 hora

-divida os alimentos em porções pequenas e coloque na geladeira o que será consumido em 2 ou 3 dias. Congele o restante.

-lave frutas e vegetais em água corrente antes de descasca-las. Remova as áreas machucadas.

-lave as embalagens dos alimentos antes de abri-las.

-não utilize o mesmo utensílio do preparo dos alimento para fazer provas

-nunca prove alimentos com odor estranho

-cozinhe os ovos ate a clara estar totalmente dura e a gema espessa

-checar a data de fabricação de todos os produtos que ira consumir

-checar odor, e o aspecto da embalagem, se esta danificada ou estufada

-selecione vegetais e frutas íntegros

-evite salgadinhos e sobremesas não refrigeradas

-estoque os alimentos o mais rápido possível

-evitar alimentos como:

-carnes defumadas e frutos do mar crus

-ovos crus ou preparações que usem ovos mal passados

-produtos não pasteurizados do tipo queijo, iogurte, mel, leite e derivados

-maionese ou cremes fora de refrigeração

-água que não seja potável

O diagnóstico e o tratamento oncológico podem afetar a nutrição.

Segue-se as formas de como o tratamento oncológico afeta a nutrição nas diversas fases:

Cirurgia: Aumenta muito a necessidade de uma boa alimentação. Pode afetar algumas funções como na boca, garganta, estômago e intestinos. A nutrição adequada acelera a recuperação de feridas e a cicatrização - Antes da cirurgia geralmente o médico lhe recomenda uma dieta rica em proteínas e calorias, principalmente se seu peso está baixo. Após a cirurgia alguns pacientes podem alimentar-se normalmente, ou requerem uma dieta especial orientada pelo médico e a nutricionista.

Radioterapia: O procedimento da radioterapia pode afetar células normais, dependendo do campo de radiação que o paciente será submetido para o seu tratamento - Os tratamentos de tumores da cabeça, pescoço e mama podem causar secura na boca, irritação na boca, irritação na garganta, alteração para engolir os alimentos, alterações no paladar, problemas nos dentes. Os tratamentos para estômago e abdome podem levar a náusea e vômitos, diarreia, dores abdominais.

Quimioterapia: Afetar também as células do sistema digestivo, afetando a capacidade de alimentação - causa náusea e vômitos, perda de apetite, diarreia, irritação da boca e garganta, aumento ou perda de peso, alterações no sabor das comidas.

Imunoterapia – terapia biológica: Como estimula o sistema imunológico para defesa contra o câncer, pode também levar a alterações na alimentação - causa náusea e vômitos, perda de apetite, diarreia, irritação da boca e garganta, aumento ou perda de peso, alterações no sabor das comidas.

Terapia hormonal: Alguns tipos de tumores são tratados com terapia hormonal e essas podem levar a alterações no apetite, dor muscular e fadiga, retenção de líquidos.

FONTES:

Dicas de nutrição saudável na rede pública:

www.pratobom.com.br 

www.minhavida.com.br/

www.inca.gov.br

www.oglobo.globo.com

www.cidadeverde.com

Nutrição em Oncologia, autor: Dr. Nivaldo Barroso de Pinho

Science; 275:218–220, 1997

Open Biol, 3, 120144, 2013

Cancer; 86(1): 37-42, 1999

Food Research International; 44: 902–910, 2011

* A Dra. Silvia Regina Graziani, CRM 56925, é Medica Oncologista Clinica, com título de especialista em Cancerologia (1992). Residência Médica: Hospital do Câncer A. C. Camargo. Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médica do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho – IAVC, São Paulo.

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