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31/12/2013 - 03h55m

Artigo 20 - Uma nova realidade dos cuidados paliativos no Brasil

Agência Hoje/Dra. Silvia Regina Graziani* 

Perspectivas de uma nova realidade dos Cuidados Paliativos no Brasil

Artigo escrito pela Dra. Silvia Regina Graziani*

Cuidados Paliativos ainda é uma situação complicada no Brasil, principalmente pela colocação da proposta, uma vez que culturalmente entendemos que Cuidados Paliativos pode significar o abandono do tratamento especifico para doenças crônicas, entre essas o câncer.

A origem da palavra Palliun significa em latim – o manto que cobria os peregrinos cristãos durante as Cruzadas na idade média, na Europa.

Logo podemos entender como algo que “protege” do sofrimento.

No decorrer da historia da medicina a evolução nos levou ao entendimento dos mecanismos da maior parte das doenças e a medicina foi direcionando quase que exclusivamente para a “cura”.

Essa grande contribuição ocorreu principalmente a partir do século XX, com o advento dos avanços tecnológicos aliados ao entendimento médico.

Porém isso teve seu preço. Exames sofisticados foram lentamente substituindo o diálogo médico com o paciente e o exame físico minucioso a procura de algum sinal relacionado a doença e consequentemente levaria ao raciocínio da interpretação dos fatos e a proposta de diagnostico e programação terapêutica.

Com as novas tecnologias corremos o risco de transformar os pacientes em doenças e registros, esquecendo que por traz dos sintomas há um ser humano com muitas dúvidas.

Um breve Histórico da organização social dos Cuidados Paliativos:

Há registros históricos do mundo bizantino, no reinado de Constantino, onde ele, por influencia de sua mãe, fazia a remoção de doentes e pobres das ruas para locais de acolhimento.

No século V, Fabíola, que era uma enfermeira, recolhia pobres e moribundos das ruas de Roma e os abrigava em locais denominados de Óstia (hospedarias).

Na idade média, os hospícios eram direcionados para internação e cura de doentes vítimas da peste, que devastava cidades na Europa.

No século passado, na cidade de Londres, foi fundado um local denominado de “St. Luke´s Home for Dying Poor”, destinado a abrigar pessoas vítimas de câncer.

Neste local se destaca o trabalho de uma mulher chamada Cicely Saunders.

Cicely nasceu na Inglaterra em 1918 em uma família rica, a qual propiciou a ela na época estudar filosofia, economia e política em Oxford.

Posteriormente, estudou enfermagem, onde trabalhou exaustivamente como enfermeira, porém apresentou problemas de saúde e teve que se afastar do trabalho assistencial.

Mais tarde, aos 40 anos, formou-se medica, em 1957.

Cicely Saunders com seu grandioso trabalho com pacientes com câncer e debilitados foi a idealizadora da filosofia “Hospice”, que para nos é o local onde permanecem internados pacientes com câncer em fase avançada da doença, para receber suporte clinico, emocional e espiritual.

Ela nos deu o embasamento técnico para o entendimento e inserção dos Cuidados Paliativos na medicina moderna.

Seu legado nos mostrou que os pacientes com câncer em fase avançada da doença, são melhores tratados se receberem este tipo de suporte, principalmente em ambientes que lembrem seus lares e que seja compartilhado por familiares e amigos próximos em instituições humanizadas por profissionais preparados.

Em 1967, Cicely Saunders fundou o Hospice St. Cristopher´s, na Inglaterra.

Cicely muito contribuiu para a compreensão e atendimento digno a pacientes terminais.

Criou o termo “Dor Total”, que no seu entendimento vai além do sofrimento físico, considerando o componente psíquico, emocional, social e espiritual da dor.

Na década de 1970 outra mulher brilhante se destaca, a médica psiquiatra americana Elizabeth Kluber Ross, que introduz o conceito da Filosofia Hospice e de Cuidados Paliativos nos Estados Unidos da América.

Graças ao esforço pessoal dessas mulheres, em 1982 a Organização Mundial de Saúde (OMS) define os Cuidados Paliativos relacionados ao alívio da dor e surge a disponibilidade de leitos em instituições como Hospices para doentes com doença oncológica avançada, incorporando definitivamente a assistência de Cuidados Paliativos na pratica médica usual.

Hoje o termo Cuidados Paliativos está incorporado a todas as especialidades que tratam de doenças crônicas e incuráveis.

Em 1986 a OMS definiu Cuidados Paliativos.

Este trecho foi revisto em 2002:

“Cuidados Paliativos é a abordagem que promove qualidade de vida de pacientes e seus familiares diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida, através da prevenção e alívio do sofrimento o que requer a identificação precoce, avaliação e tratamento impecável da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual”.

O objetivo é:

-alivio da dor

-nunca acelerar ou adiar o processo natural da morte

-atendimento através de equipe multiprofissional para dar suporte ao paciente e seus cuidadores

-auxiliar o doente e seus cuidados no processo de enfrentamento ao luto

-manutenção da autonomia do doente de acordo com suas expectativas e a expectativa dos familiares

-informar o doente e seus cuidadores da real situação

-documentar todo atendimento em prontuário medico

O processo de morte e a finitude da nossa existência é inevitável e durante a vida, e principalmente na vigência de doenças ameaçadoras como o câncer, temos que entender as verdades subjetivas que nos dá acalanto para podermos proporcionar alívio ao próximo.

Aos profissionais de saúde, principalmente os que trabalham diretamente com doenças crônicas, cabe a aceitação da morte de forma ética, moral e legal, como um processo natural da vida.

Esses fatores complexos envolvem questões pessoais e muitas vezes de “Forum Intimo”.

De uma forma geral os ocidentais tem uma grande dificuldade de aceitação e entendimento do processo de morte. Ainda um grande tabu.

Os próprios médicos nunca tratam um paciente para morrer.

A filosofia de Cuidados Paliativos vem de encontro com as expectativas de muitas especialidades médicas que coincidem com o processo das doenças crônicas, sem perspectiva de cura, como na área de oncologia, nefrologia, neurologia e reumatologia.

Na área da oncologia, os Cuidados Paliativos devem ser aplicados no momento que a doença se manifesta como metástases e será definida sempre pelo médico assistente.

Outras doenças como as demências, cardiopatias, insuficiência renal e insuficiência hepática e outras, o processo da própria doença é lento e desta forma os Cuidados Paliativos devem ser avaliados nas situações onde o doente apresenta perda da autonomia como perda da capacidade funcional, por exemplo.

Os Cuidados Paliativos podem ser aplicados na pratica em locais como:

-casa através da Assistência Domiciliar

-nos Hospitais, a nível de enfermarias e ambulatórios

-nas clinicas especializadas, como tipo “Hospice”

Fontes pesquisadas:

-Sociedade Espanhola de Cuidados Paliativos – www.secpal.com

-http://palliative.info

-Pratica Hospitalar, numero 03, paginas 43-47, 2001

-FigueredoMGMCA, Cuidados Paliativos, editora Comenius, pg: 196-204 - 2007

* A Dra. Silvia Regina Graziani, CRM 56925, é Medica Oncologista Clinica, com título de especialista em Cancerologia (1992). Residência Médica: Hospital do Câncer A. C. Camargo. Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médica do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho – IAVC, São Paulo.

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