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26/01/2015 - 11h47m

Artigo 47 - Saiba mais sobre ontogenética e diagnóstico precoce

Agência Hoje/Dra. Silvia Regina Graziani* 

São Paulo - Atualmente sabemos que no desenvolvimento do câncer há um componente do meio ambiente que é responsável pela maior parte do desenvolvimento dos tumores, como por exemplo, o cigarro, no câncer de pulmão; a poluição nos tumores respiratórios; o sol nos tumores de pele.

Outro componente é o fator genético. Nem todos nós desenvolvemos câncer quando expostos a fatores sabidamente cancerígenos, como o sol e o cigarro. Porém, há populações que nascem com alterações genéticas e irão desenvolver câncer em alguma fase de sua vida.

Essas pessoas representam aproximadamente 2% das pessoas que desenvolvem câncer, mas graças aos conhecimentos de orogenética, podemos saber quem são essas pessoas e acompanhá-las de perto. Para que, caso o tumore se desenvolva, o mesmo seja diagnosticado precocemente e aumente as chances de cura.

Sabemos que existem três tipos de genes envolvidos no processo de formação de tumores malignos:

• Oncogenese: que são ativados e estimulam as células a se dividirem;

• Genes supressores do tumor: genes que estão ativados e se desativados, passam a não controlar o crescimento das células.

• Genes de reparo do DNA, que são os genes que fazem a varredura para verificar se há alguma alteração no comando celular de divisão células, como por exemplo nas infecções por vírus, como o vírus Papiloma Vírus Humano - HPV, que incorpora o DNA da célula para produção de novos vírus e posteriormente se transformam nos tumores malignos.

Esses genes são considerados os genes de predisposição ao câncer.

Nos tumores genéticos, as pessoas nascem com alteração no funcionamento de um desses grupos de genes.

O câncer de mama é muito frequente e a cada ano um maior número de mulheres são acometidas pela doença.

Dos tumores diagnosticados cerca de 90 a 95% são considerados como tumores esporádicos, e 5-10% representam tumores hereditários.

Dessas 5-10% de mulheres que desenvolvem câncer hereditário, 20% apresentam mutação em dois genes – BRCA 01 e BRCA 02.

Esses genes já são conhecidos e podem ser pesquisados em laboratórios no Brasil.

Porém 75-80% estão relacionados a outros tipos de genes, o qual nem todos são conhecidos.

Para um tumor de mama ser considerado tumor hereditário é necessário ter um histórico familiar:

• Parentes de primeiro grau: mãe, irmã ou filha com câncer de mama

• Familiar homem com câncer de mama

• Familiar com a associação de câncer de mama e ovário (na mesma pessoa), cujo diagnostico foi feito com menos de 50 anos de idade

O que ocorre é que nos tumores hereditários acontece um fenômeno denominado de antecipação, ou seja cada vez mulheres mais jovens desenvolvem o câncer de mama, ou quando a filha tem o diagnóstico de câncer de mama na idade precoce e antes do diagnóstico do câncer de mama da mãe.

Ester alerta é importante para o diagnóstico de câncer em mulheres jovens.

A mãe e as irmãs devem fazer uma vigilância muito rigorosa, com exames periódicos de detecção do câncer.

Na linha do tempo:

Mamografia: recurso usado para diagnóstico de câncer de mama há mais de 50 anos.

Em um futuro muito próximo, o qual ao colher uma amostra de sangue, poderemos detectar se há alteração genética que favoreça o desenvolvimento do câncer.

Outro câncer muito frequente o qual merece alerta, e tal qual o câncer da mama que quando diagnosticado precocemente aumenta as chances de cura é o câncer de intestino, que inclui o colón e o reto.

Também temos nessas pessoas acometidas por este tipo de tumor uma porcentagem delas que apresenta câncer hereditário.

Nesses tumores, os avanços de conhecimento de ontogenética estão direcionados para os testes de “Instabilidade de microssatélites”, que são frações do DNA das nossas células, que quando alterados levam ao desenvolvimento dos tumores hereditários de intestino.

Esses testes também estão disponíveis nos laboratórios do Brasil e estão indicados em pessoas que apresentam tumores de intestino diagnosticado em idade jovem (antes dos 50 anos).

Existe critérios que são universalmente aceitos para determinar se uma pessoa tem risco de desenvolver o câncer do intestino familiar.

São os critérios de Amsterdan II, revistos em 1999 e os critérios de Bethesda, revistos em 2004.

São esses:

Critérios de Amsterdan II (Vasen e cols., 1999)

Famílias com pelo menos três parentes apresentando um dos cânceres associados à Hereditary No Polipoid Colon Cancer - HNPCC- (Câncer colorretal - CCR, câncer de endométrio, intestino delgado, ureter ou pelve renal), sendo que:

1. Um deve ser parente em primeiro grau dos outros dois;

2. Pelo menos duas gerações sucessivas devam ser afetadas;

3. Pelo menos um caso de câncer deve ser diagnosticado antes dos 50 anos de idade;

4. O diagnóstico de polipose adenomatosa familiar deve ser excluído nos casos de CCR.

Critérios de Bethesda revisados (Umar e cols., 2004)

1. Câncer de intestino diagnosticado em paciente com menos de 50 anos;

2. Presença de câncer de intestino sincrônico (2 cânceres ao mesmo tempo ou com espaço inferior a 6 meses) e/ou metacrônico (novo câncer em espaço maior que 6 meses ou cânceres extra-colônicos (endométrio, ovário, estômago, intestino delgado, hepatobiliar, pelve renal ou ureter) independentemente da idade;

3. Câncer de intestino com histologia sugerindo MSI* (instabilidade de micro-satélites) diagnosticado em pacientes com menos de 60 anos (*presença de linfócitos infiltrando o tumor, reação linfocíticaCrohn-like, diferenciação mucinosa ou em anel de sinete ou padrão de crescimento medular);

4. Câncer de intestino diagnosticado em um ou mais parentes de 1º grau, com tumor relacionado à síndrome, com um dos tumores sendo diagnosticado antes dos 50 anos;

5. Câncer de intestino diagnosticado em um ou mais parentes de 1º ou 2º graus, com tumores relacionados à síndrome, independentemente da idade.

(Fonte: Digest – Endoscopia e Fisiologia Digestiva, Internet)

Na era da medicina personalizada, cada vez mais teremos recursos para detectar as pessoas que podem desenvolver tumores malignos, como por exemplo na mama ou no intestino e já propor um tratamento profilático, como a remoção das mamas e colocação de próteses, e outras estratégias para curá-los.

Também existe disponível no Brasil uma novidade para as mulheres que tem câncer de mama que é um teste denominado de Oncotype, o qual analisa genes envolvidos nos tumores e auxilia na decisão do tratamento quimioterápico complementar, quando um tumor de mama é diagnosticado em estágios iniciais, com ou sem os gânglios axilares comprometidos.

O teste Oncotype analisa 21 genes relacionados com o comportamento biológico do tumor, predizendo o prognostico e a evolução da doença.

Esta tecnologia não está ao alcance de todos, pois tem um custo muito alto, mas em breve teremos mais novidades para a medicina personalizada em oncologia.

Referências

-PLOS Gent 2011 jully; 100-121.

- American Association for ClinicalChemistry

- J ClinOncol 27:e11536, 2009

- Paik et al. J ClinOncol 24:1, 2006

* A Dra. Silvia Regina Graziani, CRM 56925, é Medica Oncologista Clinica, com título de especialista em Cancerologia (1992). Residência Médica: Hospital do Câncer A. C. Camargo. Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médica do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho – IAVC, São Paulo.

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