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18/02/2015 - 12h25m

Artigo 49 - Revendo dados e estatísticas da incidência do câncer

Agência Hoje/Dra. Silvia Regina Graziani* 

São Paulo - Nos últimos 10 anos as projeções estatísticas dos dados de incidência de câncer apontam o crescimento de 69% de incidências no número de casos novos da doença.

Até os dias de hoje a notificação correta e a interpretação dos dados nas diferentes regiões do Brasil ainda é muito complexa e um grande desafio para as autoridades ligadas ao Ministério da Saúde.

O órgão que está à frente da Política Nacional de Atenção a Oncologia pelo Ministério da Saúde é o Instituto Nacional do Câncer – Inca – localizado no Rio de Janeiro.

Segundo dados do Inca o número estimado de casos novos de câncer para o ano de 2015 é de 590000 casos, e este número representa um crescimento de 69% em relação ao número de casos novos no ano de 2005.

Atualmente, o câncer hoje é a segunda causa de morte, sendo a primeira as doenças cardiovasculares.

Os tipos de câncer mais frequentes, em indivíduos com mais de 40 anos são:

• Pele não Melanoma Maligno – 134000 casos/novos

• Próstata – 60000 casos/novos

• Mama - 53000 casos/novos

• Colón e reto - 30000 casos/novos

• Pulmão – 27000 casos/novos

• Estômago – 20000 casos/novos

• Colo do útero – 13000 casos/novos

Porém, sabe-se que há um grande contraste na incidência nas diversas regiões do Brasil, com aumento dos tumores relacionados a pobreza como os tumores do colo uterino nas regiões Norte e Nordeste e dos tumores de intestino e próstata nas regiões Sul e Sudeste, pois estão associados a melhora do status sócio econômico e maior expectativa de vida, uma vez que 60% do diagnóstico das neoplasias de próstata se dá aos 80 anos.

O risco de desenvolver câncer está relacionado ao maior tempo de vida, pois quanto mais se vive, maior as chances de exposição a agentes carcinogênicos como poluição e cigarro, por exemplo.

Como no câncer de próstata, ocorre também com outro tumor muito frequente em mulheres, que é o câncer de mama cuja incidência aumenta muito após os 50 anos.

O câncer de mama é o tumor que mais leva mulheres a morte em todo o mundo.

O diagnóstico precoce muda este cenário, sendo que nos países desenvolvidos, as taxas de mortalidade estão decrescendo, pois o diagnóstico precoce aumenta as chances de cura da doença.

No Brasil ainda estamos longe desta realidade. O diagnóstico precoce é de baixa incidência e segundo estimativas do Inca para 2014, 14000 mulheres morreram por câncer de mama.

A detecção precoce é feita pelo rastreamento por mamografia, e o problema está na disponibilidade deste exame na rede do Sistema Único de Saúde - SUS.

Há 4287 mamógrafos no país, 2017 operando no SUS, porém com baixa produtividade, realizando uma média de 3,5 milhões de exames ao ano, mas seria necessário a realização de 13,5 milhões de exames para atingir todas as mulheres com mais de 50 anos que tem indicação da realização do exame de mamografia para rastreamento.

Além disso, 44% dos mamógrafos estão localizados na região Sul e Sudeste, e mais concentrados nas capitais. Estima-se que 50% dos municípios do Brasil não tenham mamógrafos.

Dados do Grupo Brasileiro de Estudos do Câncer de Mama - GBECAM, mostra uma taxa elevada de tumores de mama diagnosticados na região da Amazônia em estágios avançados da doença. Fato este atribuído a falta da disponibilidade de mamógrafos para diagnóstico precoce.

Também dados de outros estudos do mesmo grupo apontam que pacientes do serviço privado tem chances muito maiores de diagnostico precoce de câncer de mama, comparadas com as pacientes do SUS.

Quanto mais precoce o diagnóstico de um câncer, maior as taxas de cura, mas isso não é valido para todos os tumores onde a dificuldade é o diagnóstico precoce.

Em alguns tipos de tumores, como por exemplo o câncer gástrico no qual estima-se que 10 a 15% dos pacientes tem diagnóstico precoce, pois este tipo de câncer não tem sintomas e não há métodos de rastreamento validos.

Um alerta é o histórico familiar de câncer de estômago e a presença da bactéria Helicobacter Pilory no exame de Endoscopia.

Dados de notificação de câncer chamam muito a atenção para a incidência de alguns tipos de tumores que são raros em algumas regiões e muito incidentes em outras, levando a um alerta regional e a necessidade de alguma estratégia eficaz nessas regiões na tentativa de reduzir a incidência.

É o caso dos tumores de pênis, cuja incidência é muito alta nas regiões Norte e Nordeste do Brasil e estão relacionadas ao perfil epidemiológico de acometer homens pobres com baixa escolaridade.

Estima-se que aproximadamente 1000 homens sofreram amputação peniana no ano de 2014, sendo 70% parcial e 30% total.

Este tumor está relacionado a infecção sexualmente transmissível pelo vírus – HPV – Papiloma Vírus Humano, o mesmo causador do câncer do colo de útero.

O que vale a pena campanhas de conscientização desta doença nessas regiões específicas.

Medidas eficazes promovidas pelo Ministério da Saúde na campanha de prevenção do câncer do colo do útero teve impacto muito positivo na redução da incidência desta doença, passando de segundo lugar em incidência e primeiro em mortalidade nos anos 2000, para sexto lugar em incidência no ano de 2014, graças as campanhas de colher o exame de citologia oncótica de Papanicolau, o popular Papanicolau, nos Postos de Saúde.

Exame de fácil realização, cuja leitura do aspecto das células colhidas do colo uterino e fundo vaginal revelam aspectos inflamatórios de infecção pelo HPV, que antecedem a transformação celular para o câncer invasivo, aumentando as chances de cura dessas pacientes.

Fontes:

Valeria Hartt, Revista Onco&, ano 03, numero 13

www.revistaonco.com.br

www.inca.org.br – Panorama do câncer no Brasil

* A Dra. Silvia Regina Graziani, CRM 56925, é Medica Oncologista Clinica, com título de especialista em Cancerologia (1992). Residência Médica: Hospital do Câncer A. C. Camargo. Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médica do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho – IAVC, São Paulo.

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