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26/08/2015 - 11h43m

Artigo 61 - Oncologia personalizada: tema é destaque em Simpósio

Agência Hoje/Dra. Silvia Regina Graziani* 
  • Figura ilustrativa, que mostra o mecanismo de ação do Rituximabe bloqueando o crescimento da célula tumoral do Linfoma, impedindo sua proliferação e controlando a doença
  • Figura ilustrativa que mostra a ação do anticorpo Ipilimumabe estimulando as células do sistema imunológico a reconhecer as células tumorais de Melanoma

São Paulo - Nos dias 20 a 22 de agosto foram realizados em São Paulo dois eventos muito importantes de atualização na área de oncologia, onde foram apresentados temas de trabalhos realizados nos Estados Unidos e Europa relacionados ao tratamento personalizado do câncer.

Em muitos dos estudos apresentados tiveram a participação de Centros de Estudos Brasileiros, os quais recrutava pacientes para serem tratados com essas novas estratégias.

Como o câncer tem uma grande importância como doença no mundo, acometendo 12 milhões de pessoas ao ano, é também a doença de maior causa de morte, seguindo as causas cardiológicas.

Estamos dando um passo muito importante na medicina, que é a Era da Medicina Personalizada.

Exatamente como é descrita, a medicina personalizada vai permitir a identificação de pacientes com determinado tumor, que receberá o tratamento especifico para tratar a alteração genética que seu tumor apresenta.

Com o avanço do conhecimento de biologia molecular, que identifica onde ocorreu a alteração celular que levou ao desenvolvimento do câncer, e é identificado através da análise da célula de forma muito minuciosa.

Há alguns anos, vivenciamos essa realidade e estamos convivendo com uma grande conquista, que é tornar o câncer uma doença crônica controlável.

Há mais de 20 anos surgiu o primeiro anticorpo monoclonal comercializado no Brasil, o Rituximabe, comercializado pelo Laboratório Roche.

Esse promissor medicamento é direcionado para o tratamento dos Linfomas que expressam uma “proteína” denominada de CD20.

O Rituximabe foi incorporado pelo Sistema Único de Saúde - SUS para o tratamento dos Linfoma Difuso de Grandes Células, um tipo muito agressivo de Linfoma e em 2014 foi ampliado a dispensa para Linfomas não Hodgkin de células B folicular em primeira e segunda linhas (quando a doença resiste ou retorna após o primeiro tratamento com outro medicamento), que ocorreu em 2009.

Este tipo de Linfoma corresponde a 30% dos Linfomas e a expectativa é de acometimento de 1500 pessoas por esta doença por ano.

O Rituximabe é usado durante a quimioterapia porque destrói as células defeituosas e aumenta a sobrevida dos pacientes. A doença provoca a multiplicação e o acúmulo de linfócitos, principalmente nos gânglios linfáticos, causando dores, inchaço e febre.

Seguindo a linha do Rituximabe e também comercializado pelo Laboratório Roche, foi lançado o Trastuzumabe, para o tratamento do câncer de mama.

Hoje sabemos que o câncer de mama, tipo Carcinoma Ductal Invasivo consistem em pelo menos cinco doenças diferentes, e é necessário o exame de imunohistoquimica para se propor um tratamento.

Na imunohistoquimica se avalia a célula e se essa célula tumoral expressa os receptores de estrógeno e progesterona e a proteína HER 2.Os tipos que expressam a proteína HER 2 se beneficiam do uso do Trastuzumabe associado a quimioterapia.

O Trastruzumabe também está disponível para uso pelo SUS desde 2012, para o tratamento do câncer de mama em estádios I a II, que expressem HER 2 no exame de imunohistoquimica.

Novidade ainda mais recente foi a aprovação pela Agencia Regulatória Nacional a ANVISA, do medicamento que também age bloqueando a proteína HER 2, o Pertuzumabe. Este anticorpo impede a ligação ao receptor HER, bloqueando a sinalização celular que bloqueia o crescimento dessas células.Outro fato interessante desta medicação é que ela também ativa o sistema imunológico das pacientes para destruir as células tumorais.

Outros anticorpos monoclonais direcionados para proteínas especificas também foram desenvolvidos e estão comercializados e utilizados na pratica oncológica diária para outros tipos de câncer.

O Cetuximabe e o Panetuzumabe são indicados para o tratamento do câncer de intestino cujo exame molecular mostre que não ocorreu mutação em um gen, denominado de KRAS.

Para os pacientes com o tumor de comportamento mais agressivos que conhecemos que é o Melanoma Maligno também temos 2 novidades muito promissoras. Muitos pacientes com Melanoma metastático tiveram uma evolução muito desfavorável, mas estudos mostraram que um anticorpo monoclonal desenvolvido para ativar o sistema imunológico, funcionou muito bem no controle de alguns pacientes com Melanoma Maligno avançado.

Este anticorpo é o Ipilimumab, desenvolvido por Bristol-Myers Squibb e por Medarex, consiste em milhões de cópias de um anticorpo humano que ligue a uma molécula dos glóbulos brancos que patrulham o corpo para sinais da doença.

Também para Melanoma foi desenvolvido outro anticorpo monoclonal para os Melanomas que apresentam mutação no gene BRAF.Aproximadamente 40 a 60% dos melanomas cutâneos apresentam mutações do gene BRAF.

As mutações no gene BRAF que substituem a valina na posição do aminoácido 600 resultam em proteínas BRAF constitutivamente ativadas, as quais podem causar proliferação celular na ausência de fatores de crescimento que seriam normalmente necessários para a proliferação.

O Vemurafenib é um inibidor da quinaseserina-treonina do BRAF com mutações do cordão 600 (mutações presentes em cerca de 50% dos melanomas) indicado para o tratamento em monoterapia de doentes adultos com Melanoma avançado e/ou metastático.

Novidades também no tratamento personalizado do câncer de pulmão.

O câncer de pulmão é o que mais chamou atenção dos pesquisadores nos últimos anos, principalmente após a industrialização e o hábito de fumar, que aumentou a frequência deste tumor de forma alarmante, chegando a ser considerado problema de saúde pública.

Os tumores de pulmão do tipo histológico Adenocarcinoma, não tão comumente relacionado ao hábito de fumar, pode apresentar mutação em um gene denominado EGFR.

Se ocorrer a mutação deste gene, os pacientes se beneficiam de medicamentos que agem na mesma indicação – o Gefitinibe e o Erlotinibe.

Ambos agem em vias específicas da proliferação celular impedindo a progressão da doença.

Muitos outros anticorpos monoclonais e terapias alvo têm sido estudados e em breve a quimioterapia será substituída pela assinatura genética do tumor e o paciente usará o medicamento específico para sua mutação genética, evitando assim os efeitos colaterais da quimioterapia.

Mas mesmo com todas essas novidades tão promissoras, a melhor estratégia para o câncer é o diagnóstico precoce, que proporciona maior chance de controle da doença.

* A Dra. Silvia Regina Graziani, CRM 56925, é Medica Oncologista Clinica, com título de especialista em Cancerologia (1992). Residência Médica: Hospital do Câncer A. C. Camargo. Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médica do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho – IAVC, São Paulo.

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