São Paulo, SP, 23/10/2018
 
23/09/2016 - 12h24m

Artigo 85 - Imuno-oncologia: remédios para atacar o câncer

Agência Hoje/Dra. Silvia Regina Graziani*  

São Paulo - Os cientistas que desenvolvem medicamentos para o tratamento do câncer estão estudando uma nova estratégia para tentar conter o crescimento tumoral.

Essa estratégia não é nova e na realidade é conhecida há muitos anos, sendo motivo de vários prêmios Nobel de medicina. Se trata da ativação do sistema imunológico do próprio paciente para atacar as células cancerígenas.

O nosso sistema imunológico reconhece células que estão alteradas por algum motivo. Por exemplo, reconhece as células infectadas por um vírus e bactérias e desta forma, através do reconhecimento dessas alterações na estrutura das células, as células do nosso sistema imunológico, mais especificamente os Linfocitos, reconhecem as alterações nas células anômalas e as destroem.

A ideia seria a mesma, se considerarmos que a célula tumoral passa a ser uma “célula estranha”, pois não para de se dividir formando novas células filhas e o tumor.

Porém, não é tão simples assim e a ativação dessas células depende de algumas estruturas como o “microambiente” tumoral, que seria o meio onde o tumor se desenvolve. Esse meio é sempre muito favorável ao desenvolvimento tumoral.

As células de defesa, linfocitos, destroem a célula estranha de duas formas, uma desenvolve uma inflamação no local e a outra, simplesmente aniquila a célula tumoral.

Embora pareça uma situação simples e óbvia, pois desta forma nos mantemos vivos e com saúde, quando se passa para o entendimento do desenvolvimento tumoral esse sistema se torna muito mais complexo, mesmo porque as células tumorais são nossas mesmo, e elas enganam o sistema imunológico.

Então os cientistas têm desenvolvido moléculas que ativam o sistema imunológico e não são quimioterápicos, mas levam a destruição das células tumorais. Essa nova estratégia terapêutica tem revolucionado o tratamento dos tumores malignos.

A maioria desses medicamentos ainda não estão disponíveis para o uso clinico, mas alguns já estão sendo usados com relativo sucesso.

O problema maior é que não funciona para todas as pessoas que tem um determinado tipo de câncer, embora o mecanismo de ativação do sistema imunológico seja o mesmo, algumas pessoas apresentam resistência e não respondem ao tratamento imuno-oncologico.

Um tumor muito estudado, mesmo porque é muito frequente e apresenta alta taxa de mortalidade é o câncer de pulmão.

Temos basicamente dois tipos mais frequentes:

- Carcinoma Epidermoide, que é devido ao habito de fumar

- Adenocarcinoma, eventualmente relacionado ao fumo, porem pode ocorrer em pacientes jovens, e que nunca fumaram.

Essas diferenças é que levaram os cientistas a procurar o que de fato ocorre com esses pacientes, uma vez que a causa do desenvolvimento do câncer é diferente.

Então desde a década de 1990 tem se publicado pesquisa de mutação nessas células, que posteriormente se tornaram alvos moleculares de medicamentos específicos.

Um exemplo que estamos usando na pratica é a pesquisa da mutação de um gene denominado de EGFR (gene responsável pelo crescimento de células no tecido pulmonar). Os tipos de tumores Adenocarcinoma que apresentam mutação neste gene EGFR devem ser tratados com um dos medicamentos específicos que vão atacar somente as células tumorais, que são o Geftinibe (Iressa® - Astra Zeneca) ou Erlotinibe (Tarceva® - Roche) ambos são indicados para essa situação e levam a respostas muito favoráveis no tratamento deste tipo de tumor.

Outro gene estudado nesse tipo de tumor e que tem um medicamento especifico é o gene ALK, que também pode estar mutado em alguns pacientes com Adenocarcinoma de pulmão.

O medicamento especifico para tratar pacientes com câncer de pulmão que apresentam mutação no gene ALK é o Crizotinibe (Xalkori® - Pfzer), aprovado no Brasil pela ANVISA em fevereiro de 2016.

Esse medicamento favorece um pequeno número de pacientes que apresentam a mutação no gene ALK.

O Crizotinibe também é ativo nos pacientes que apresentam mutação no gene MET, outro pequeno grupo de pacientes que desenvolvem tumores de pulmão relacionados a mutação especifica no gene MET.

Mais um gene descrito como mutado em tumores de linhagem Adenocarcinoma de pulmão em pacientes jovens e que nunca fumaram é o gene RET, e para esses pacientes também tem um medicamento especifico que é o Vandetanibe (Caprelsa® - Astra Zeneca).

O Caprelsa® já é comercializado no Brasil, mas está indicado na bula aprovado pela ANVISA para tratamento de câncer medular da tireoide.

Mas a grande novidade maior e mais esperada foi o lançamento de um imunoterapico usado para tratar câncer de pulmão de ambos os tipos (Epidermoide e Adenocarcinoma) que progrediram após a quimioterapia, que é o Nivolumabe (Optidivo® - Bristol), aprovado pela ANVISA em abril de 2016.

O Nivolumabe age estimulando a defesa do organismo, ativando os Linfocitos T (células responsáveis por nos defender de infecções de vírus e bactérias).

As células infectadas por vírus e bactérias, e também as células tumorais apresentam um sinal que é reconhecido pelos Linfocitos. O Nivolumabe se liga a este sinal e desta forma ativa as células de defesa para destruir as células tumorais.

O Nivolumab foi aprovado para tratar Melanoma Maligno em fase de metástase e o Câncer do Pulmão, também na fase de metástase que não tenham obtido resposta com a quimioterapia na primeira linha do tratamento.

Esse é somente o início de uma nova fase muito promissora para o tratamento do câncer,

com expectativa de maiores repostas tumorais e menores efeitos adversos relacionados ao tratamento.

Mas mesmo com todas essas perspectivas ainda estamos muito longe de poder oferecer esse tipo de tratamento para a grande maioria de pacientes no Brasil que depende do Sistema Único de Saúde.

Bibliografia

www.uptodate.com

www.falandosobreocancer.com.br – autora Dra. Maria Helena Cruz Rangel da Silva, CRM 49563 (publicado em abril de 2016)

* A Dra. Silvia Regina Graziani, CRM 56925, é Medica Oncologista Clinica, com título de especialista em Cancerologia (1992). Residência Médica: Hospital do Câncer A. C. Camargo. Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médica do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho – IAVC, São Paulo.

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