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15/05/2014 - 19h42m

Belo Horizonte aposta em educação para combater o racismo

Agência Brasil/Akemi Nitahara, enviada especial 
Agência Brasil/Tomaz Silva
Comunidade Dandara, em Belo Horizonte, nasceu há cinco anos, tem dois mil habitantes e é exemplo na educação das crianças
Comunidade Dandara, em Belo Horizonte, nasceu há cinco anos, tem dois mil habitantes e é exemplo na educação das crianças

Belo Horizonte - O Brasil deve aproveitar a oportunidade de sediar uma Copa do Mundo para discutir o combate ao racismo. Para a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, é importante discutir o racismo no futebol, mas sem esquecer que atitudes preconceituosas nos estádios são apenas reflexo da sociedade.

“É preciso deixar evidente que o racismo no futebol é a expressão do racismo que existe na sociedade como um todo, existe um crescimento dos casos de racismo de uma maneira geral, não apenas no futebol”, disse.

“Mas, em função da Copa, acho que nós podemos aproveitar essa conjuntura para ajudar a elevar a consciência das pessoas em relação à necessidade de se repudiar qualquer manifestação discriminatória contra negros”, destacou a ministra.

A questão do racismo no futebol entrou em campo este ano por causa do episódio com o jogador Tinga, do Cruzeiro, que foi alvo de atos preconceituosos por parte da torcida do Real Garcilaso, em Huancayo, no Peru, na estreia do time mineiro na Taça Libertadores da América, em fevereiro.

Futebol Sem Racismo

O apoio a Tinga veio de todos os lados, inclusive da torcida rival. O diretor de eventos da torcida organizada Galoucura, do Atlético Mineiro, Marcelinho Conceição, explica que a rivalidade tem que ficar restrita às quatro linhas.

“Nós fizemos uma homenagem ao Tinga. O tema foi: rivalidade sim, racismo não. Nós somos o país que mais tem descendentes de africanos fora da África. Então, toda vez que toca no racismo, toca em 190 milhões de habitantes.”

O jogador do Cruzeiro relata que nunca tinha passado por uma situação de racismo em campo, mesmo jogando na Europa e no Japão, locais com histórico de xenofobia. Do triste episódio, ele propõe a ampliação do debate para promover a igualdade plena na sociedade a partir da educação.

“Enquanto a gente não levar esses temas diretamente na educação, na base escolar, vai ser difícil, porque a gente faz hoje como adulto aquilo que a gente vem aprendendo quando criança, quando adolescente. E esses temas, não só o racismo, mas o tema da igualdade, têm que estar diretamente na escola, porque eu acredito que o preconceito é uma falta de educação. Eu acredito que o governo e nós também, como família, como pais, deveríamos fazer a nossa parte através da educação, começar dentro de casa, ter essas conversas.”

Em Belo Horizonte, os negros (pretos e pardos) somam 52,7% da população. É mais do que a média nacional, que está em 50,7%, de acordo com o Censo 2010. A coordenadora de Promoção da Igualdade Racial do município, Rosângela da Silva, lembra que o problema está enraizado na sociedade, mas vem à tona quando um caso como o de Tinga ganha repercussão.

História da África

“Na década de 80, na década de 90, a gente abria o livro didático e qual era a imagem que a gente reconhecia ali na história? Era a imagem do negro amarrado, a imagem do índio preguiçoso. E isso criou também uma negação da própria identidade para o negro. Hoje a gente tem a Lei 10.639, que é uma lei federal, que trata do ensino da história da África nas escolas, que representa um grande avanço quando a gente pensa na questão do enfrentamento, do combate ao racismo. Eu acho que no Brasil em nível de política de reparação, em política reparatória, esse é um dos pontos mais importantes”.

Dentro das escolas, Belo Horizonte avançou na questão com a distribuição de livros de literatura afro-brasileira. A gerente de Articulação da Política Educacional da Secretaria Municipal de Educação, Rosa Vani Pereira, explica que o projeto começou em 2003 e hoje conta com 433 títulos.

“Contar a história do kit de literatura é contar um pouco também como essa conversa entra na escola, como você desmistifica o que os alunos viam até então como geografia e história africana, e de forma muito preconceituosa. Quando se falava em África nos currículos até então, você falava ou na África do Tarzan ou na África da miséria, você não saía dessas duas pontas. Então, o primeiro kit foi muitíssimo interessante porque a gente desvela um pouco o próprio mercado editorial, foi uma luta compor esse kit.”

Além da distribuição dos livros, a secretaria de educação promove a mostra de literatura afro-brasileira, com oficinas, exposições e filmes sobre o tema, para movimentar as escolas e apresentar os títulos aos estudantes e professores.

Outra iniciativa pioneira em Belo Horizonte foi a criação, em novembro de 2013, do Núcleo de Atendimento a Vítimas de Crimes Raciais e de Intolerância (Navcradi). De acordo com o gerente do núcleo, Jefferson Rodrigues de Oliveira, o objetivo é atender as demandas individualmente e acompanhar os processos de crimes raciais e intolerância religiosa dentro da Polícia Civil, para que esse tipo de registro não fique parado.

“As pessoas que têm chegado aqui têm visto no núcleo um órgão capaz, por exemplo, de satisfazer as necessidades deles no sentido de eles trazerem a demanda e saberem que daquilo poderá ser feito algo, coisa que no trâmite geral, da delegacia, é mais difícil.”

Comitê Popular

Apesar das muitas iniciativas de combate ao preconceito, o racismo institucional ainda é realidade. O Comitê Popular dos Atingidos pela Copa (Copac) denuncia atos de discriminação, por parte da polícia, durante os protestos de junho do ano passado. Um dos presos durante as manifestações foi o artista plástico Ameba, que passou um mês no cárcere. Ele relata que os 15 presos foram colocados nus, ajoelhados e algemados, e tiveram os cabelos raspados. Um rapaz negro teve o cabelo no estilo rastafari cortado com faca.

“Teve um cara negro, de dread, teve outros punks negros também. Cortaram o dread do cara com faca, no maior desrespeito, isso aí é uma agressão à sua identidade. Cortar moicano é a mesma coisa, é tirar a identidade do punk, o maior desrespeito, a maior invasão.”

Rosa Vani reconhece a existência de discriminação contra vários grupos de pessoas. Mas lembra que atitudes racistas ocorrem o tempo todo no país e se refletem em um número duas vezes e meia maior de assassinatos de jovens negros do que o de brancos.

“Mas aí eu fico muito preocupada quando a gente faz essa discussão, porque outro dia eu ouvi que gordo também é discriminado. É, só que gordo morre por problema de pressão. Quando eu pego o Mapa da Violência no Brasil, eu não tenho aquela quantidade imensa de meninos negros morrendo porque são gordos, eles estão morrendo porque são negros mesmo.”

O jogador Tinga sugere uma solução a longo prazo para o fim do preconceito: aulas que possam abordar tudo o que acontece na vida das pessoas.

“Não sou eu que vou dizer o que tem que ter em uma escola, mas eu acredito que deveria ter uma matéria que fosse somente vida, dia a dia, enfim, porque tem tanta matéria que a gente estuda e demora para utilizar, às vezes nem utiliza, eu acredito que poderia ter uma matéria, algo como cidadania, humanidade, que a gente pudesse falar de tudo. Abordaria o preconceito de religião, de opção sexual, enfim, ensinaria, conscientizaria. Eu acredito que deveria ter isso na escola.”

A coordenadora de promoção da igualdade racial da cidade também acredita que a educação é o caminho em busca da igualdade.

“Tanto na Copa do Mundo, fora da Copa do Mundo, dentro dos times de futebol, da escola, qualquer ação de combate ao racismo, a base dessa ação passa pela educação. Então não tem como, não acredito em nenhuma ação assertiva de promoção da igualdade racial que não envolva esse pensar, essa reflexão, a educação do indivíduo, a educação do sujeito”.

O projeto que deu origem a esta reportagem foi vencedor da Categoria Rádio do 7º Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, realizado pela Andi, Childhood Brasil e pelo Fundo das Nações Unidos para a Infância (Unicef).

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