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13/07/2014 - 08h35m

Felipão quer ficar como técnico, mas nova derrota e as vaias mostram trabalho medíocre

Agência Hoje/Edmundo Fortes 
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Torcedores vaiam Felipão por trabalho medíocre na seleção e duas derrotas consecutivas
Torcedores vaiam Felipão por trabalho medíocre na seleção e duas derrotas consecutivas

Rio de Janeiro (Agência Hoje/Edmundo Fortes) - Luiz Felipe Scolari continua se movimentando de todas as formas para continuar como técnico da seleção brasileira. Mesmo depois do resultado humilhante no jogo com a Alemanha, quando a equipe foi derrotada por históricos 7 a 1, e de uma segunda derrota diante da Holanda, por 3 a 0, o técnico ainda acredita.

Para ele, o bom resultado conquistado na Copa das Confederações, o quarto lugar na Copa 2014 e os jovens valores que foram destacados ao longo dos jogos, como David Luiz, Marcelo, Luiz Gustavo e Oscar, comprovam a realização de um trabalho eficiente e valem mais do que as duas derrotas consecutivas e os 10 gols sofridos.

Na verdade, o técnico quase conseguiu se safar. O presidente da CBF, José Maria Marin, ficou tocado com os argumentos do treinador e disse que decisões sobre eventuais mudanças só poderiam ser tomadas após o final da Copa. Nos bastidores comentava que estava inclinado a manter Scolari, "apesar do desastre contra a Alemanha".

Marco Polo Del Nero, o vice-presidente atual e já eleito para comandar a CBF a partir de 2015, foi além: "Na minha opinião, Felipão deve ser mantido, defendo a continuidade do trabalho". Em um país com pouca memória, onde o perdão emocional muitas vezes substitui o pragmatismo, tudo parecia caminhar para o técnico continuar dirigindo a seleção.

Só faltava uma vitória contra a Holanda e a garantia do terceiro lugar na competição. Ou, talvez, um empate no tempo regulamentar e uma derrota na prorrogação. Quem sabe, até uma derrota nos pênaltis. Para tudo tem uma desculpa, uma justificativa, uma promessa. Com o decepcionante 3 a 0, porém, as coisas ficaram mais difíceis.

Teimosia e Erros

Minutos depois da derrota sofrida para a Holanda, de ouvir vaias do público nas arquibancadas e os gritos de "burro", o técnico brasileiro ainda teve coragem de tentar justificar a derrota. "Na minha avaliação, o time jogou bem e merece elogios. Nós, agora no final da competição não fomos bem, mas conseguimos uma classificação e não podemos deixar de elogiar os jogadores. Era para ser um jogo equilibrado", disse ele na tradicional coletiva pós jogo organizada pela Fifa.

Sobre uma eventual saída da seleção brasileira, a repetição das tentativas de se perpetuar na função. "Essa é uma decisão do presidente. Vou apresentar meu relatório de trabalho, como ficou combinado, e mostrar o que fizemos, os bons resultados conquistados. Com esse material ele e os seus assessores vão decidir o que é melhor".

Os resultados obtidos por Felipão no comando da seleção brasileira em 2014 estão entre os piores da história. Foram sete partidas disputadas, três vitórias contra times reconhecidamente fracos, dois empates diante de seleções apenas medianas e duas derrotas humilhantes contra as únicas que teoricamente estão no mesmo patamar da equipe brasileira.

Em sete partidas disputadas na Copa do Mundo, a seleção marcou 11 gols e sofreu 14. O time não tinha defesa e muito menos ataque. O meio de campo nunca existiu. Goleiro e zagueiros tinham que dar chutões para a frente porque não encontravam companheiros no meio de campo. A seleção de Luiz Felipe Scolari foi irreconhecível, medíocre.

Perder de 7 a 1 para a Alemanha é mais do que um "apagão de cinco minutos". Perder para a Holanda de 3 a 0 mostra um resultado decepcionante. Com a agravante que as partidas foram realizadas no Brasil, com apoio maciço da torcida, em clima e temperaturas favoráveis. E mais um detalhe: nunca os jogadores da seleção foram tão bem tratados, tão paparicados.

Felipão, Nunca Mais

A maioria dos comentaristas concorda que o problema do Brasil não foi com os jogadores. Eles não deixaram de ser bons de repente e nem desaprenderam o futebol que praticam com sucesso em vários países do mundo, disputando com sucesso os campeonatos mais competitivos que existem. O problema foi de falta de esquema de jogo. Felipão é indiscutivelmente um técnico ultrapassado, que não estuda futebol e não se interessa pelas novidades.

A mediocridade, a ingenuidade de tentar criar uma "família" para substituir o jogo objetivo, cheio de estratégias, avançado, mais uma vez dominou o espírito do técnico brasileiro. As câmeras mostraram em várias ocasiões, Felipão sentado no banco, ora com as mãos sobre o rosco vermelho, ora inerte, sem ação ao ver as jogadas de alemães e de holandeses.

Em entrevista à ESPN, o presidente da Federação de Santa Catarina, Delfim Peixoto, foi duro, mas coerente nas críticas contra o técnico Luiz Felipe Scolari, um dia depois da derrota diante da Alemanha.

"Felipão foi teimoso demais. Em todos os momentos. Desde a convocação até o esquema tático escolhido. Tudo errado. Não quero nem falar sobre isso, para não falar bobagem. Mas uma coisa eu posso te garantir, nunca mais o Felipão vai estar com uma seleção brasileira. Não volta nunca mais. Um vexame, uma vergonha".

O insucesso de Felipão não vem de hoje. Demitido da seleção de Portugal depois de colecionar sucessivas derrotas, inclusive contra seleções de pouca expressão na África e na Ásia, ele voltou para o Brasil em baixa. Foi chamado pelo Palmeiras e assinou um contrato diferenciado, onde tinha plenos poderes para escolher jogadores, montar time competitivo e ganhar campeonatos.

Não conseguiu nada do prometido, perdeu jogos fáceis, contratou jogadores que não foram aproveitados em campo, transformou o grande Palmeiras em saco de pancadas, discutiu com torcedores e saiu quando o time estava prestes a ser rebaixado para a segunda divisão. A situação do clube era tão grave que não houve tempo para evitar a queda.

Seleção Nada

A ida para a seleção brasileira foi um prêmio. Depois de dois fiascos, nas copas de 2006 e 2010, e de ser comandada pelo irascível Dunga e o fraquíssimo Mano Menezes, a CBF procurava um nome capaz de mudar a situação rapidamente, fazer as pazes com a torcida e ganhar jogos. Carismático, Felipão parecia o nome certo. Convidado, aceitou rapidamente a função, pediu jogos difíceis, convocou uma equipe jovem e, ousado, prometeu ganhar a Copa do Mundo de 2014.

A Copa das Confederações, uma competição importante, foi o primeiro grande teste. O Brasil venceu seleções de nível médio e surpreendeu a Espanha, a grande campeã da Copa do Mundo de 2010. Parecia embalada, os jogadores mostravam garra, os torcedores incentivavam cantando o hino e levavam as pessoas a se emocionarem e os adversários a tremerem.

Com o passar do tempo, novamente as pessoas que mais conhecem futebol no Brasil foram percebendo que a seleção tinha garra, vontade, mas faltava esquema tático, estratégia de jogo, jogadas ensaiadas. Na última Copa em que foi campeão, o Brasil contava com quatro ou cinco craques diferenciados. Em 2014, só tinha um, Neymar.

Foi pouco. A seleção ganhou três vezes, mas em nenhuma delas deu uma demonstração de que praticava um bom futebol. Foram vitórias discretas, insuficientes para dar confiança à torcida e muito menos aos jogadores. Com Neymar, o time não estava bem. Sem Neymar caiu de vez, porque deixou de contar com a única peça diferenciada em campo.

Faltou um comandante capacitado para armar a equipe com outro esquema tático e enfrentar adversários fortes de igual para igual. A falta de comando levou neste sábado, 12, a situações constrangedoras. As emissoras de televisão mostraram, por exemplo, jogadores saírem do campo para conversar com altetas que estavam de reserva, no banco.

Queriam saber o que fazer no jogo, como evitar mais gols, como adiantar a marcação, por onde atacar. Parecia - e era - uma seleção sem comando. Os torcedores presentes ao Estádio Mané Garrincha, em Brasília, também perceberam. E por mais esse fiasco, não perdoaram, vaiaram Felipão, Parreira e toda a chamada comissão técnica.

Como entender que mesmo diante de uma situação tão clara, Felipão ainda crie factóides para continuar técnico. Suas palavras depois do jogo sobre uma eventual saída, esbarram na bajulação: "Quem deve decidir é o presidente [José Maria Marin]. Como já estava combinado, independentemente do resultado, vamos terminar nosso relatório e entregar o cargo à direção da CBF. Nosso presidente tem grande capacidade para fazer as análises que achar que deve".

Só para não esquecfer: a seleção encerrou a Copa do Mundo de forma melancólica. Foram três vitórias, dois empates e duas derrotas. Em sete partidas, foram 11 gols marcados e 14 sofridos. Para Felipão, o time teve bons momentos no Mundial, como disputar uma semifinal, o que não ocorria desde 2002. Para quem gosta de futebol, o momento exige mudanças.

As vaias tiveram seu valor. Horas depois da derrota, o presidente da CBF, com semblante triste, admitia aos jornalistas que o procuravam para saber sobre o destino final de Felipão a mudança de opinião. "Depois das vaias e da derrota a situação ficou insustentável..." E mais não disse.

* Com informações do site da CBF, Portal EBC e do site da Fifa

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