Jogos Mundiais dos Povos Indígenas são encerrados com aplausos e cantos em Palmas - Hoje São Paulo
São Paulo, SP, 20/08/2018
 
01/11/2015 - 10h09m

Jogos Mundiais dos Povos Indígenas são encerrados com aplausos e cantos em Palmas

Agência Brasil/Marcelo Brandão 
Agência Brasil/Marcelo Camargo
Jogos Indígenas fazem sucesso e são encerrados em clima de alegria em Palmas, no Tocantins
Jogos Indígenas fazem sucesso e são encerrados em clima de alegria em Palmas, no Tocantins

Palmas, Tocantins - Um show pirotécnico encerrou os primeiros Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI) na noite desse sábado (31), em Palmas. Fogos de artifício cobriram o céu da Arena Verde ao final da cerimônia de encerramento dos jogos, sob aplausos de milhares de indígenas e não indígenas nas areias e nas arquibancadas. Uma verdadeira maratona de jogos, debates, manifestações e muita celebração chegou ao final.

Foi uma semana intensa de descobertas e trocas culturais. Nações de várias partes do mundo se reuniram em Palmas e entraram para a história como integrantes dos primeiros jogos mundiais. Foram 1.695 indígenas do Brasil e de outros 22 países disputando provas e demonstrando seus esportes típicos.

Os palmenses, turistas e imprensa do mundo inteiro puderam ver, conversar e tirar fotos com pataxós, manokis, karajás, Kuikuros e vários outros índios do Brasil. Os estrangeiros também foram bem recebidos. Mexicanos, bolivianos, neozelandeses, canadenses, dentre outras nações, conquistaram e foram conquistadas pelo público presente. Ganhando ou perdendo, todos eram aplaudidos e celebrados.

A população de Palmas abraçou o evento. A vila dos jogos recebeu uma média de 13 mil pessoas por dia. Até sexta-feira (30), foram 104.856 mil visitas ao complexo, que abrange a Oca da Sabedoria, a Feira de Artesanato, a Feira de Agricultura, o Estádio Nilton Santos e a Arena Verde. Só na última semana, foram 51.492 visitas. Enquanto as últimas provas eram disputadas no início da noite de ontem, visitantes formavam filas enormes para entrar na Feira de Artesanato.

De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a Feira de Artesanato movimentou, só até a última quarta-feira (28), mais de R$ 300 mil em vendas de produtos produzidos por indígenas de várias etnias. Um grande comércio também foi montado em frente à feira, por iniciativa de diversas etnias, entre elas, Karajá e Pataxó. No local, o movimento também era intenso.

“Do ponto de vista da organização, a gente tem que dizer que foi um sucesso. A gente esperava um público de 100 mil pessoas até o final do evento. Passamos desse número”, avaliou o diretor-geral dos JMPI, Luiz Lobo. Para ele, a maior herança do evento é o encontro de várias culturas. “Mais positivo é essa oportunidade que povos do mundo inteiro tiveram de se encontrar em um só lugar e discutir questões como demarcação de terra, água, sustentabilidade. Acho que esse é o legado maior”.

O articulador dos jogos, Marcos Terena, também comemorou o resultado do evento sobretudo na afirmação das diferentes culturas que existem no mundo. “Não só nós, como organizadores, mas todas as delegações indígenas perceberam a importância do evento com essa grandeza. Afirmamos nossa grandeza, nossa inteligência e nossos direitos de sermos diferentes”.

Terena também lembrou o viés político dos jogos, a visibilidade para as questões indígenas. “Nós mostramos que a medalha principal é o direito à vida. Se não tivermos demarcação das terras, não terá vida e essa riqueza plástica e cultural que nós temos não vai sobreviver no futuro”.

A próxima edição já tem ano e local para acontecer. Indígenas do mundo inteiro se reencontrarão no Canadá, em 2017. “Poderemos receber vocês com toda honra e alegria com que vocês nos receberam aqui. Já convido vocês para participarem dos segundos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas”, disse o líder da etnia Cree, do Canadá, Willy Littlechild.

XERENTES SÃO CAMPEÕES NO FUTEBOL MASCULINO

Palmas, Tocantins (EBC/Nathália Mendes) - Em cerca de uma hora, o povo xerente foi da apatia pela derrota das mulheres para as canadenses na final do futebol feminino para a euforia pela conquista histórica do time masculino nos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em Palmas.

Depois do empate em 2 x 2 com a Bolívia no tempo regulamentar, o título mundial foi decidido em cinco cobranças de pênaltis para cada lado.

Os xerentes converteram três e erraram duas, enquanto os bolivianos balançaram as redes em duas vezes e desperdiçaram outras duas vezes.

Coube ao zagueiro Felipe Xerente acertar o canto esquerdo de Diego Jachacollo, que caiu para o outro lado, e garantir o campeonato para a etnia tocantinense.

Trazendo as bandeiras de Tocantins e do Brasil, os xerentes entraram em campo entoando um canto tradicional de seu povo.

Dentro das quatro linhas, o time se sentiu em casa: com o apoio da maioria dos quase dez mil torcedores presentes, os atletas aceleraram o ritmo de jogo e travaram a Bolívia em seu campo de defesa.

Com dificuldade para sair com a bola nos pés, a Bolívia não produziu nada de efetivo nos primeiros minutos de jogo.

Quando a partida começava a ficar mais equilibrada, os xerentes saíram na frente.

Aos 16 minutos do primeiro tempo, Moisés Xerente, um dos destaques do time, apareceu nas costas da defesa, dominou a bola enfiada na grande área e tocou na saída do goleiro.

A resposta da seleção boliviana veio logo em seguida, com duas cobranças de escanteio que levaram perigo ao gol de Leandro.

A história do jogo começou a mudar depois que o centroavante Jose Almanza mostrou presença de área.

O capitão da Bolívia recebeu a bola e chutou no lado esquerdo do gol, empatando em 1x1, aos 22 minutos da etapa inicial – na final, o jogo foi dividido em dois tempos de 40 minutos, com dez minutos de intervalo.

O placar igualado deixou a partida mais truncada: os xerentes insistiam na base da velocidade, e a seleção estrangeira escapava nas falhas defensivas do adversário.

A Virada e os Pênaltis

A bola parada da Bolívia voltaria a fazer a diferença logo no início do segundo tempo, aos 13 minutos. Em cobrança de falta, Almanza ganhou a disputa e acabou empurrando para o fundo do gol xerente.

Foram apenas dez minutos de sufoco, com a taça indo parar nas mãos dos visitantes: aos 23, Rairan Xerente mergulhou de cabeça e fez o estádio Nilton Santos explodir.

Na reta final da decisão, a Bolívia ainda perdeu dois jogadores. Depois de ter sido advertido por falta dura, Almanza recebeu o segundo cartão amarelo por simulação de pênalti, em decisão da arbitragem bastante criticada pela seleção.

A expulsão do capitão desestabilizou o time emocionalmente e, em menos de três minutos, Willian Pereira fez duas faltas para cartão; Foi expulso.

A primeira série de pênaltis começou com três cobranças para cada time.

Roly Hurtado foi o primeiro cobrador, batendo no alto. Vanderlei Xerente acertou pelo lado dos indígenas brasileiros. Gaspar Javier desperdiçou seu chute, que passou por cima do travessão.

Ismael Xerente colocou os donos da casa em vantagem, mas Cristian Jilmet empatou.

João Carlos teve a primeira chance de acabar com o jogo, mas o goleiro boliviano foi buscar no canto superior do gol e impediu a volta olímpica.

Nas alternadas, brilhou a estrela de Leandro que defendeu os chutes de Salvador Casia e Willi Zurita.

O gol da vitória veio dos pés de Felipe Xerente, que bateu como manda o figurino: bola para um lado, goleiro para o outro.

“Ficamos meio baqueados porque as meninas perderam nos pênaltis. Assim, superamos a pressão depois de termos a oportunidade de matar o jogo. Nosso time é bem jovem, mas também tem jogadores mais experientes. Felizmente, eu pude marcar e dar o título para o meu povo”, disse o autor da última cobrança.

Homenagem ao Técnico

O outro herói dos xerentes caiu no choro no momento da comemoração: “Não consigo nem falar direito. É uma honra muito grande para mim”, afirmou o goleiro Leandro Xerente, muito emocionado.

“Tem que estar sempre preparado para ajudar o time e seguir com humildade e respeito ao adversário. Agora é só comemorar”.

Moisés Xerente valorizou o espírito aguerrido da equipe: “Eu pensei que a gente ia perder, mas acreditamos até o fim”.

Interino na decisão por conta do estado de saúde do técnico Dorabel de Souza, internado após um princípio de infarto, Samuel Gomes da Silva, que auxilia a preparação física do time, dedicou a conquista ao mentor dos xerentes.

“O mérito é todo dele. Dorabel merece muito por ter uma parcela muito grande desta vitória. É um cara que se dedica, é de dentro da aldeia e é muito querido pelos xerentes”, elogia.

O treinador substituto conta o que disse aos jogadores no momento em que o time ficou atrás no placar.

“Conversamos para que eles não deixassem o ritmo cair no segundo tempo. Tentamos tocar o coração deles e mostrar importância de representar o nosso país aqui na nossa casa. Esta foi uma oportunidade única e eles assimilaram isso muito bem”.

A campanha do povo xerente:

Primeira fase

Xerente 2 x 2 Pataxó

Xerente 7 x 0 Erikibaktsa

Oitavas de final

Xerente 1 x 0 Pataxó

Quartas de final

Xerente 1 x 0 Kanela

Semifinal

Xerente 4 x 0 Karajá

Final

Xerente 2 x 2 Bolívia (nos pênaltis: Xerente 3 x 2 Bolívia)

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