São Paulo, SP, 20/06/2018
 
26/04/2016 - 23h21m

Médicos brasileiros já preservam mamilo em cirurgias de câncer

Agência Brasil/Alana Gandra 
Reprodução
Médicos desenvolvem cirurgias capazes de preservar mamilos em casos de câncer de mama
Médicos desenvolvem cirurgias capazes de preservar mamilos em casos de câncer de mama

Rio de Janeiro - Pesquisadores da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) têm agora condições de reduzir o número de mastectomias mutiladoras em pacientes com câncer de mama, graças a estudos efetuados em São Paulo, que usaram exames de ressonância magnética e de congelação que identificam se o tumor comprometeu ou não o mamilo, contribuindo para a sua preservação na cirurgia.

A associação dos dois métodos já está sendo adotada, na prática, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), segundo o coordenador do estudo, José Roberto Piato: “Quando se associa os dois (exames), consegue-se preservar o mamilo com uma segurança enorme. Só tiramos o mamilo, hoje em dia, quando ele está tomado pela doença e não indiscriminadamente, mutilando as mulheres, como se fazia sempre”.

A ideia é estender isso para toda a prática clínica, no país, inclusive no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), diz o coordenador do estudo José Roberto Piato. O grande problema, explica, é a reconstrução do mamilo, que aparece como principal causa de insatisfação em uma cirurgia plástica de reconstrução mamária.

O primeiro estudo envolveu 170 pacientes de câncer de mama residentes em São Paulo. As mulheres, submetidas à mastectomia clássica, de retirada completa de glândulas mamárias, pele, auréola e mamilos, fizeram ressonância magnética, que é um exame de imagem, para verificar se havia invasão tumoral do mamilo.

Membro da SBM, José Roberto Piato explica que, tradicionalmente, a mastectomia inclui a remoção da auréola e do mamilo: “De uns tempos para cá, temos tentado fazer cirurgias mais conservadoras, no sentido de preservar o mamilo, porque o resultado estético é muito melhor. Isso é importante para a cabeça da paciente. A mama compõe a imagem corporal da mulher e a preservação do mamilo interfere com a questão da sexualidade e com a feminilidade”.

O esforço, conforme Piato, é no sentido de preservar o mamilo mas, quando existe um tumor na mama, muitas vezes ele se estende até o mamilo, de forma até microscópica, que não é visível a olho nu. Nessas situações, é importante que o mamilo seja removido.

Finalidade Estética

Os métodos desenvolvidos objetivam mostrar em que situações o câncer se estende ou não até o mamilo. Na ressonância magnética, é injetado um contraste no sangue que costuma ser captado pelo tumor de mama como uma espécie de brilho, chamado realce.

“Essas pacientes, antes de terem as mamas removidas, foram submetidas a esse exame”, relata Piato. Os pesquisadores tentaram, então, determinar se as variantes analisadas tinham relação ou não com o comprometimento do mamilo. As mamas removidas foram encaminhadas ao patologista, enquanto o radiologista revia os exames de ressonância efetuados.

José Roberto Piato informa que quando o exame de ressonância mostra um realce que se estende de forma contínua desde o tumor até a papila (mamilo), a chance de comprometimento do mamilo é alta. Quando não existe esse realce contínuo, “em 90% das vezes, o mamilo está livre (do câncer)”.

Outro achado importante apontado pela ressonância magnética é que quando o mamilo está retraído ou repuxado, a chance de comprometimento é grande. “Agora, quando não existe nenhum dos dois, se não tiver nem o realce se estendendo do tumor até a papila, nem a retração da papila, a chance de ela estar livre é mais que 90%”, assegura Piato.

Esse estudo é complementado por outro, com a mesma finalidade de descobrir se o tumor chegou ou não ao mamilo, também coordenado pelo mastologista e publicado na revista internacional European Journal of Surgical Oncology no final do ano passado. A diferença é que ele é feito na hora da cirurgia por um exame de congelação, segundo o médico: “Removemos um tecido atrás do mamilo e entregamos para o patologista. Ele faz uns cortes de congelação e olha no microscópio. Se estiver livre, não tiramos o mamilo”. Enquanto o exame de ressonância dá 90% de segurança para os cirurgiões, o exame de congelação permite 99% de segurança, revela Piato.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), ligado ao Ministério da Saúde, o Brasil terá este ano 57.960 novos casos de câncer de mama. A incidência da doença tem aumentado entre 1% a 2 % ao ano.

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