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29/03/2014 - 00h45m

Museu Afro Brasil expõe o melhor da coleção de Emanoel

Agência Hoje 
Reprodução
Emanoel Araújo apresenta mostra de 50 anos de trabalhos de arte no Brasil
Emanoel Araújo apresenta mostra de 50 anos de trabalhos de arte no Brasil

São Paulo (Agência Hoje) - A coleção de obras do escultor Emanoel Araújo, reunida ao longo de 50 anos, está exposta no Museu Afro Brasil, instituição da Secretaria da Cultura do Governo de São Paulo. Com o título “‘O que os olhos não vê, o coração não sente - A arte de todo mundo: 50 anos de vivências”, poderá ser vista até o dia 27 de junho.

O título da exposição faz menção ao adágio popular, presente no samba “Viaduto Santa Efigênia”, de Adoniran Barbosa e Alocin. Com essa referência, o curador relembra a decisão de mudar-se de Salvador para a capital paulista: “A gente só fica se o coração sente aquilo que vê. A exposição é sobre como se vislumbra, numa cidade como São Paulo, a arte de todo mundo. Essa vivência me levou a conhecer muitas pessoas. Relembramos várias pessoas amigas, artistas da minha geração e outros que eu conheci, com um pequeno comentário sobre cada momento”.

A mostra contará com obras de Aldemir Martins, Di Cavalcanti, Norberto Nicola, Fernando Lemos, Isabel Munhoz, Antonio Henrique Amaral, Octávio Araújo, Caciporé Torres, Frans Krajcberg, Caetano Dias, Antônio Hélio Cabral, Takashi Fukushima, Gilberto Salvador, Newton Mesquita, Marcos Concílio, Genaro de Carvalho, Alex Hornest, João Câmara, Danilo di Prete.

Também estarão presentes nomes como Hércules Barsotti, Fernando Odriozola, Macaparana, Almir Mavignier, Mário Cravo Júnior, Mário Cravo Neto, Walter Firmo, Soly Cissé, Osmundo Teixeira, Marcelo Grassmann, Justino Marinho, Maureen Bisilliat, Ivan Serpa, Carlos Scliar, José de Guimarães, Dominique Zinkpè, entre outros.

História Vivida

O escultor Emanoel Araújo conta a trajetória das artes plásticas no Brasil. "A história passa primeiro por São Paulo, em razão das manifestações artísticas a partir da dita Semana de Arte Moderna de 1922. Aqui cheguei trazido pelo meu querido amigo, o gravador Odetto Guersoni, em 1964, quando eu o conheci na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Com ele andei pela cidade, que se concentrava culturalmente entre a Avenida São Luís, Praça da República, Praça Ramos de Azevedo, Avenida São João e Rua Marconi, etc.

"Na Sete de Abril morava o então pintor e crítico de arte Quirino da Silva, que mantinha uma coluna no jornal “Diário de Notícias”, do grupo dos Associados. Na Praça da República morava a escritora Maria de Lourdes Teixeira e José Geraldo Vieira, o crítico oficial da "Folha de S.Paulo", que ficava e ainda fica na alameda Barão de Limeira. Naquela época, os artistas iam até a redação para divulgar suas exposições.

"Lá também se encontrava um outro crítico, bem mais jovem, Ivo Zanini, irmão do diretor do MAC-USP (Museu de Arte Contemporânea), Walter Zanini, o criador da exposição “Jovem gravura nacional”. No “Estado de S.Paulo”, havia Geraldo Ferraz, crítico severo e de vez em quando de muitos maus bofes, casado com a pintora Wega Nery. Estavam aí no Centro da cidade, meio provinciana e meio metropolitana, as muitas galerias de arte da época, onde fervilhavam os vernissages elegantes com artistas, colecionadores e o high society. Evidentemente, essas figuras apareciam nas páginas duplas da coluna de Tavares de Miranda, na Folha.

"A vida artística corria ativa pelas galerias de Ana Maria Fiocca, na Avenida São Luís, com Pola Rezende na Galeria dos Artistas, no Conjunto Zarvos, com Clovis Graciano e Emy Bonfim, a livraria Kosmos, de Stefano Gheiman, por onde se encontrava colecionadores ávidos como José Mindlin, Erik Stickel, Adolf Buck, Ernesto Wolf, Willys de Castro e Hércules Barsotti. Na galeria Astreia - também de propriedade do Stefano -, a dinâmica diretora artística Sara de Campos; na Praça Ramos de Azevedo e no edifício de mesmo nome, grandes mostras de artistas como Di Cavalcanti, Aldo Bonadei, Alfredo Volpi.

"Na Rua da Abolição, na Bela Vista, moravam Bonadei e Inês, sua irmã. Era sempre um prazer o contato com esse grande pintor. Ele ainda era um artista inquieto e, para alguns amigos, chegava mesmo a desenhar ternos e vestidos, lembrança dos tempos em que fazia bordados para sobreviver. Eram, naturalmente, tempos difíceis, de um mercado quase inexistente, o que não tirava o brilho de muitos artistas, de suas criações e de suas teimosias.

"Bonadei foi também um pioneiro por mostrar sua obra e sua arte na feira da Praça da República, que longe estava de ser a que hoje existe. Ali, muitos artistas vindos do Embu e outros, como Maria Auxiliadora, mostravam sua arte. São Paulo acontecia com o Salão Paulista de Arte e o Salão de Arte Contemporânea, do governo do Estado. Estas exposições, em tempos antigos, ocupavam a galeria Prestes Maia.

"Depois, com o advento do Paço das Artes, na Av. Europa, ali se instalou o de Arte Moderna e se extinguiu o de Arte Acadêmica. Eram, portanto, muitos e muitos artistas que faziam da cultura plástica da cidade um elemento de força e desejo. Juntava-se, assim, os artistas do grupo Santa Helena e outros como Marcello Grassmann, Clóvis Graciano, Danilo di Prete, Walter Lewy, Raimundo de Oliveira, Yolanda Mohalyi, Flávio de Carvalho, Aldemir Martins, Arcangelo Ianelli, Thomas Ianelli, Octávio Araújo, Caciporé Torres, Darel, Maria Bonomi, Jacques Douchez, Flexor, Odetto Guersoni, Raimo, Wega Nery, Norberto Nicola, Francisco Rebolo, Fernando Odriozola, Carmélio Cruz, Carlos Lemos, Fernando Lemos, Antonio Henrique Amaral, José Roberto Aguilar, Alice Brill, Cláudia Andujar, George Leary Love, Maureen Bisilliat, Lívio Abramo.

"O advento da Bienal Internacional de São Paulo sempre causou grande frisson entre os velhos e os jovens artistas. Era um tempo em que havia uma seleção de júri sem o que hoje se chama de curadorias inventadas e metafóricas. Sempre se falou da Segunda Bienal do Quarto Centenário da cidade, na presença da Guernica de Picasso e de outros artistas europeus.

"Mas houve Bienais - por exemplo, com Max Bill e sua Unidade Tripartida - que fortaleceram o grupo dos concretistas e neoconcretistas. Lygia Clark, Mary Vieira, Almir Mavignier, Hélio Oiticica, Willys de Castro, Ivan Serpa e Hércules Barsotti foram exemplos significativos desse movimento.

"E também houve a grande contribuição dos japoneses - primeiro, com o grupo Seibi: Shigeto Tanaka, KichizaemonTakahashi, Yuji Tamaki, Tomoo Handa, Yoshiya Takaoka, Massao Okinaka, Alina Okinaka. Depois, a pintura informal de Waichi Tsutaka, Mabe, Fukushima, Kazuo Wakabayashi, Flavio Shiró, Tomie Ohtake. Por sua vez, Yutaka Toyota, Mari Yoshimoto e Tomoshigue Kusuno foram construtores de uma nova ideia nipo-brasileira.

"A FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) contou com uma geração de jovens arquitetos que se dedicaram à pintura: Antônio Hélio Cabral, Takashi Fukushima, Gilberto Salvador, Newton Mesquita, Claudio Tozzi. Houve um tempo em que as galerias foram migrando para a Zona Sul: a Galeria Cosme Velho (de César Luís Pires de Mello, Arthur Octávio Camargo e Flávio de Almeida Prado), a Galeria Documenta (de Biaggio Motta e Frederico Melcher), a Galeria Portal.

"A Galeria da Skultura (com Sara Teperman, Raquelita Calabroni e Clara Pascowitch), a Galeria Bonfiglioli (com Neide Bonfiglioli), na Rua Augusta, Mônica Filgueiras na Bela Cintra, Sabrina Libeman na Rua Oscar Freire, Isaac Krasilchik, Dan Galeria, Paulo Figueiredo Galeria de Arte. A editora Raízes, quando fez o livro "Xingu", da Maureen Bisilliat, marcou o começo das edições de arte em São Paulo.

"Tudo isso forjou a efervescência das artes plásticas dos anos 70. Mas houve um grande acontecimento: a saga do marchand José Paulo Domingues, da galeria Collection, com suas exposições e seus leilões que revolucionaram o mercado artístico de São Paulo. Ainda temos que lembrar o pioneirismo do professor Pietro Maria Bardi, no MASP, Ana Mae Barbosa, Aracy Amaral, Mário Schenberg, Luiz Ernesto Cawall e Radha Abramo.

"E, evidentemente, a Pinacoteca do Estado (isto é um assunto para outro escrito). O MAM (Museu de Arte Moderna), nos tempos de Diná Lopes Coelho, Luís Martins, Melhem, e as memoráveis retrospectivas de Volpi e Di Cavalcanti. Depois, com Aparício da Silva, durante a reforma de Lina Bo Bardi e dos panoramas da arte brasileira de desenho, pintura e escultura.

"Na inauguração do Paço das Artes, que antes ficava na avenida Paulista, tivemos a honra de estar com a figura marcante de Tarsila do Amaral. Essa breve narrativa não passa dos olhos viventes de um artista cujo desenvolvimento esteve sempre atrelado às circunstâncias paulistanas", concluiu.

SERVIÇO

“‘O que os olhos não vê, o coração não sente’ - A arte de todo mundo: 50 anos de vivências”

Em cartaz: de 28 de março a 27 de junho de 2014

Museu Afro Brasil - Organização Social de Cultura

Av. Pedro Álvares Cabral, s/n

Parque Ibirapuera - Portão 10

São Paulo / SP - 04094 050

Fone: 55 11 3320-8900

Entrada gratuita

www.museuafrobrasil.org.br

O funcionamento do museu é de terça-feira a domingo, das 10h às 17h, com permanência até às 18h.

Na última quinta-feira de cada mês, o horário de funcionamento será estendido até às 21h.

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