São Paulo, SP, 30/04/2017
 
25/10/2016 - 16h24m

O "VIRUDUM"

Germano Casais e Silva * 

Certa vez, em meados do século passado, um estudioso do folclore brasileiro ouviu falar que no nordeste existiu uma cantoria ou algo do gênero com o nome de "virudum".

Mas as informações eram imprecisas e, a muito custo, ele foi deslocando o seu foco para a região do Alem São Francisco do Estado da Bahia, região situada entre a margem esquerda do Velho Chico e a fronteira com o até então Estado de Goiás, hoje Tocantins.

Centralizando a cidade de Barreiras como polo para as suas investigações, com a ajuda de amigos locais, ele acabou sabendo que, no estado vizinho, tinha um velho que, tudo indicava, era talvez o único a conhecer o "virudum" já prestes a se perder para sempre e empobrecer a nossa cultura popular.

Correspondências para amigos - ele os tinha muitos - fez o polo se deslocar para o extremo norte do Estado, onde ele se estreitava, à cidade de Araguaína, entre o Maranhão a leste e Pará a oeste. Mas o esforço valia a pena.

As notícias agora eram mais precisas. Dentre os moradores da cidade que já tinham ouvido falar no "virudum", todos, sem exceção, garantiam que era o velho Isidório, que beirava os 100 anos de idade, o único daquela região que conhecia.

A dificuldade era que o velho morava distante da cidade, a noroeste, quase na fronteira com o Estado do Pará, às margens do rio das Lontras - afluente do Araguaia - e pior, a estrada, em péssimo estado, só comportava veículo com tração nas quatro rodas e terminava bem antes da casinha do velho Isidório. O restante do caminho só de cavalo ou mula.

Mas isso não esmoreceu o nosso pesquisador. Ao contrário, viu aí a importância do seu achado e a possibilidade de não deixar se perder o último elo desse folclore do século XIX.

Contactou com a emissora de rádio mais importante da capital do Brasil - televisão não existia - e no prazo recorde de três semanas já estavam em frente à pensão em Araguaina, 2 jeeps, fotógrafo, cinegrafista, técnicos de som, todos com seus equipamentos, uma parafernália que chamou a atenção da pacata cidade.

O dono da pequena fazenda que ficava pouco antes do fim da estrada já estava avisado e na expectativa de providenciar os animais, alguns com caçuás de couro curtido para carregar as tralhas dos técnicos.

Dois dias depois, às cinco da manhã, deixaram a cidade para a viagem em 3 veículos, um deles alugado na redondeza. Os primeiros quilômetros foram vencidos sem maiores percalços, a não ser pela poeira que a caravana fazia. Mas depois vieram os problemas pelo estado da estrada. Ora eram sulcos profundos que obrigavam a saltar para estudar a melhor maneira de vencê-los, ora eram uns atoleiros crônicos qe requeriam o mesmo procedimento.

Mas finalmente, o guia informou que, depois da próxima curva, já poderia avistar a casa da fazenda na qual deixariam os veículos e continuariam a viagem em lombo de cavalos e burros.

Já passando do meio dia avistaram o casebre do "seu" Isidório e, segundo o mesmo guia, o velho estava em casa, pois já o tinha visto sentado no terreiro em frente da casinha de taipa pitando o seu inseparável cachimbo de barro.

Feitas as apresentações e o motivo da visita, o nosso pesquisador indagou se ele conhecia mesmo e se sabia cantar o "virudum". A reposta foi imedita:

-- Ora, pois! E não "havera" de saber? Eu ainda era "minino" e via todos de casa, "de mamando a caducando", cantando o virudum. Era assim...

Um acesso de tosse impediu o velho começar a cantoria, o que se aproveitaram os técnicos para lhe dizer que não iniciasse, pois tinham que instalar os aparelhos de som, testá-los e posicionar as câmeras de filmagem. Tinham tambem receio do velho não ter condições de bisar o seu número.

Com os equipamentos prontos e testados, "seu Isidoro", marcando o compasso com os pés nas "aprecatas", começou:

" Ô virudum Ipiranga as marges prácidas

de um povo herói e um bardo de turbante..."

E por aí foi...

O fato foi abafado e finalmente negado "de pés juntos".

*Germano Casais e Silva é PhD pelo Grupo Escolar Austricliano Carvalho - Senhor do Bonfim - BA

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