São Paulo, SP, 10/12/2018
 
30/10/2015 - 14h22m

Observatório da Imprensa debate sobre os 40 anos da morte de Vladimir Herzog

Agência Brasil/Flávia Villela 

Brasília - Homenagens póstumas ao coronel Brilhante Ustra por parte do Exército foram repudiadas na quinta-feira (29) durante o programa Observatório da Imprensa, da TV Brasil, apresentado pelo jornalista Alberto Dines, que vai ao ar às 23h. Nesta edição, o programa analisa os 40 anos da morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado por militares em 1975. Ustra comandou Destacamento de Operações Internas (DOI-Codi) de São Paulo entre 1970 a 1974, durante a ditadura militar, local onde Herzog foi morto. Acusado pela Comissão da Verdade de liderar assassinatos e torturas durante o regime, ele morreu no dia 15, aos 83 anos, em Brasília, vítima de câncer.

“Estou muito indignado. Por que homenageá-lo?” qustionou Ivo Herzog, primogênito de Herzog e diretor do instituto Vladimir Herzog, durante o programa que foi gravado nesta tarde. Também participaram do debate os jornalistas Audálio Dantas e Diléa Frate.

Para os jornalistas Audálio Dantas e Alberto Dines, a morte de Herzog não foi “acidente de trabalho” durante a tortura. Eles mencionaram documentos que apontam que parte do Exército orquestrou um plano de tortura e mortes como demonstração de poder. "Foi uma clara tentativa de demonstrar ao lado que eles [setor da ultradireita] consideravam leve da ditadura, ou seja, o grupo do general Geisel que defendia uma abertura política, que podiam fazer o que quisessem”, disse Dantas. “Naquele momento havia um embate muito claro entre essas duas tendências. Antes do Vlado [Vladimir], a ditadura já havia praticado vários 'suicídios'. A ditadura foi muito além do que se pode e não entendo por que essas pessoas que saem às ruas para estupidamente defender a volta da ditadura não presta atenção na história”.

Dantas lamentou que 40 anos depois da morte do jornalista ainda há muito por esclarecer sobre o caso Herzog e de centenas de outros similares. Ele lembrou que a detenção de Herzog foi a 12ª prisão de um jornalista e que sua morte representou o início do fim do regime militar. “Foi o momento em que as pessoas perceberam que estava acontecendo algo monumentalmente horrível neste país, com vários assassinatos, o despertar da consciência nacional contra o horror da ditadura militar".

A jornalista Diléa Frate ressaltou que os aparatos da repressão continuaram até meados de 1980. Ela foi presa e torturada na mesma época que Vladimir Herzog. “Levantei os papeis sobre mim e levei um susto quando vi que fui citada por vários órgãos até 1984. Ainda existiam arapongas me espionando”, disse, ao afirmar que os resquícios da ditadura ainda assombram a sociedade brasileira.

Diretor de jornalismo da TV Cultura na época, Vladimir Herzog foi prestar depoimento no DOI-Codi, onde acabou preso, torturado e morto sob alegação de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro. A morte foi encenada para parecer suicídio.

Ivo Herzog comentou que soube pela mãe que na semana anterior da morte do pai, o jornalista já sabia que seria preso, mas em nenhum momento cogitou fugir. “Ele sabia que poderia ter a questão da tortura, mas dizia que não podia fugir, que tinha que ficar neste país”, disse ao ressaltar que o pai morava na Inglaterra com a família quando houve o golpe e decidiu voltar ao Brasil mesmo após o decreto do Ato Institucional 5 (AI-5), que instituiu a repressão no país.

Judeu, Vlado foi enterrado na Sociedade Cemitério Israelita que não o sepultou na área reservada aos suicidas, como determina a religião judaica, como forma de denunciar o crime. A farsa escapou do anonimato após um ato ecumênico organizado pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor James Wright, seis dias depois sua morte, na Catedral da Sé, em São Paulo. O encontro reuniu cerca de 8 mil pessoas e se transformou em um protesto contra os militares. Na semana passada, um ato ecumênico foi feito no mesmo local, há exatos 40 anos do último ato, para lembrar a data.

Em 1979, a família conseguiu na Justiça a condenação da União pelo assassinato do jornalista, mas a certidão de óbito foi emitida somente em 2013.

Hoje São Paulo

© 2012 - Hoje São Paulo - Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por ConsulteWare e Rogério Carneiro