São Paulo, SP, 23/06/2018
 
11/06/2013 - 12h19m

Onde estão os médicos? Salários oferecidos por hospitais não convencem

Agência Brasil/Noelle Oliveira 
Agência Brasil/Arquivo
Ministro Alexandre Padilha disse que analisa melhor forma de contratar médicos estrangeiros
Ministro Alexandre Padilha disse que analisa melhor forma de contratar médicos estrangeiros
  • Falta de médicos em comunidades carentes e cidades distantes continua preocupando

Brasília - Uma oferta de mais de 100 vagas de emprego cujos salários iniciais são de R$ 10.412 para se trabalhar quatro horas por dia, de segunda a sexta-feira. Se a jornada for de oito horas, a quantia dobra, chegando a quase R$ 21 mil. Essas são as condições oferecidas pelo concurso público lançado pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal, na última quarta-feira (5), a fim de selecionar médicos temporários para o sistema de saúde pública local.

A demanda acontece justamente porque, historicamente, o órgão não consegue manter completo o quadro de profissionais de que necessita, mesmo com a significativa remuneração ofertada.

É justamente o DF a unidade da federação que registra a maior proporção de médicos por habitantes do Brasil: São 4,09 profissionais para cada grupo de mil pessoas. Os números são da pesquisa Demografia Médica no Brasil, patrocinada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), e divulgada em fevereiro de 2013. A média nacional, por sua vez, é de dois médicos para cada mil brasileiros.

Apenas em 2011, foram criados quase 19 mil empregos para profissionais de medicina no Brasil, mas apenas 13 mil médicos se formaram, segundo dados da Creative Commons.

O QUE LEVA UM MÉDICO A SE AVENTURAR PELO INTERIOR DO BRASIL?

Remuneração, localização do trabalho, carga horária e acesso à residência médica. São esses, e nessa ordem, os fatores que mais pesam na hora de um médico brasileiro decidir ir trabalhar em regiões interioranas e carentes por atendimento. Os fatores principais são elencados pela pesquisa Fortalecimento da capacidade de planejamento de recursos humanos para sistemas nacionais de saúde, Estação de Pesquisa e Sinais de Mercado (EPSM), ligada ao Núcleo de Educação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Entre os fatores de influência aparecem, ainda, a oferta de moradia pelo governo; condições de trabalho e infraestrutura; vínculo de trabalho e rede de referência – nessa ordem. Os pesquisadores entrevistaram 1.157 médicos brasileiros que trabalham em regiões carentes, incentivados por programas do Ministério da Saúde e avaliaram, por meio das preferências declaradas, o peso dos diferentes incentivos.

DEMOGRAFIA MÉDICA MOSTRA O QUE ACONTECERÁ NOS PRÓXIMOS 17 ANOS

Para que cada grupo de mil brasileiros tivesse à disposição 2,7 médicos para atendimento – proporção considerada meta pelo Ministério da Saúde e registrada atualmente no Reino Unido – seria necessário um aumento atual de mais de 168 mil médicos no Brasil já que, no primeiro bimestre de 2013, o País contabilizava pouco mais de 388 mil médicos registrados no Conselho Regional de Medicina.

Com base no comportamento atual das escolas de medicina do País – considerado constante, mas pequeno, o aumento anual na oferta de vagas – essa proporção “ideal” será alcançada no Brasil em 2030. Projeções do CFM estimam que, em 2028, a quantidade de mulheres médicas na ativa superará a de homens.

A projeção faz parte da pesquisa Monitoramento da Demanda por Especialidades e Residências Médicas no Brasil em 2011, realizada pela Estação de Pesquisa e Sinais de Mercado (EPSM), ligada ao Núcleo de Educação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Caso não ocorra nenhum aumento nas vagas ofertadas para formação, o estudo mostra que a proporção ficará, passados 17 anos, em torno de 2,56 médicos por grupo.

Projeções do CFM (Conselho Federal de Medicina) estimam que, em 2028, a quantidade de mulheres médicas na ativa superará a de homens. 

CLASSE MÉDICA DIVERGE SOBRE CONTRATAÇÃO DE ESTRANGEIROS

No fim de abril, médicos e estudantes se mobilizaram em todo o país para protestar contra o projeto que prevê a contratação de estrangeiros formados em medicina. A medida adotada pelo governo busca suprir a carência de atendimento em determinados municípios do país, para onde seriam direcionados os profissionais importados. No que depender do Conselho Federal de Medicina (CFM), a pressão deve continuar. Mas a crítica, longe de ser unanimidade, é contestada por vozes da própria classe médica que apoiam a iniciativa.

Segundo o conselheiro do CFM, Mauro Ribeiro, a manifestação teria surgido de forma espontânea e não é contra a chegada de médicos estrangeiros e sim com o fato de que, pelo projeto, os novos profissionais não serão submetidos ao processo de revalidação do diploma. "O Brasil é um país de imigrantes e esses médicos são bem-vindos. O que nós pedimos é que sejam cumpridas as normas existentes no país. Não é por questão corporativa e nem pra defender espaço no mercado de trabalho que nós somos a favor da aplicação do Revalida, que é o que comprova o conhecimento básico do profissional. Se eu quiser ir para o exterior, também irão me aplicar um exame lá", ressalta o médico.

EXPORTAÇÃO DE MÉDICOS É DECISIVA PARA A ECONOMIA DE CUBA

Brasília (Agência Brasil/BBC Brasil) - A notícia de que o governo brasileiro estuda trazer médicos cubanos ao país gerou polêmica no último mês. Se concretizados, tais planos incluirão o Brasil em uma longa lista de países que já recebem médicos da ilha caribenha. Mas como, afinal, Cuba chegou a ter tantos médicos? E por que tem tanto interesse em "exportar" seus serviços para outros países?

Em Cuba, os profissionais da área de saúde têm uma função bem mais ampla do que simplesmente atender à população local. Já há algum tempo, a exportação de serviços médicos tornou-se crucial para a economia da ilha.

Segundo informações repassadas pela chancelaria do país à BBC, o contingente de profissionais de saúde cubanos trabalhando fora da ilha atualmente alcança mais de 20 mil especialistas, que trabalham em 60 países e geram lucros milionários ao regime - as cifras mais otimistas falam em até US$ 5 bilhões (R$ 10,6 bilhões) por ano.

O serviço que os médicos cubanos prestam à Venezuela, por exemplo, permite que Cuba receba 100 mil barris diários de petróleo. Há profissionais da ilha em outros países da região, assim como cerca de 4 mil na África, mais de 500 na Ásia e na Oceania e 40 na Europa. Segundo fontes oficiais, a Venezuela pagaria esses serviços por consulta - e a mais barata custaria US$ 8 (R$ 17) em 2008. Já a África do Sul pagaria mensalmente US$ 7 mil (R$ 14,9 mil) por médico da ilha.

Para muitos países em desenvolvimento, o atrativo dos médicos cubanos é que eles estão dispostos a trabalhar em lugares que os profissionais locais evitam - como em bairros nas periferias ou em zonas rurais de difícil acesso - onde moram pessoas de baixo poder aquisitivo. Além disso, em geral, eles também aceitariam receber remunerações mais baixas.

Em 1959, ano da Revolução Cubana, o país tinha apenas 6 mil médicos, sendo que a metade deles emigrou após o movimento. A crise sanitária que se seguiu a essa emigração alertou o governo para a necessidade de formar profissionais de saúde em ritmo acelerado. Agora, mais de meio século depois, o país tem 75 mil médicos - um para cada 160 habitantes, a taxa mais alta da América Latina.

Boa parte dos médicos que ficaram na ilha após a Revolução viraram professores, foram abertas faculdades de medicina em todo o país e se priorizou o acesso de estudantes ao setor. Tudo facilitado pelo fato de o ensino ser gratuito.

Entre os moradores da ilha, a exportação de médicos gera polêmica. A formação de tantos profissionais de saúde permitiu que Cuba criasse a figura do médico de família, profissional que atende nos bairros e encaminha os pacientes para especialistas ou hospitais. Esse é justamente o programa mais afetado pela saída dos médicos ao exterior. O fechamento de algumas das casas de saúde gera insatisfação entre os cubanos, aumenta a concentração de pacientes por médico e o tempo de espera.

No exterior, no entanto, esses profissionais de saúde recebem salários muito mais altos do que os que trabalham em Cuba. Alicia (nome fictício) disse ter trabalhado na Venezuela durante sete anos e garante que, apesar de já estar aposentada, "se me pedissem para voltar, aceitaria sem pestanejar".

"O que me motivou foi a possibilidade de trabalhar com o apoio a diabéticos, porque padeço da doença. Comecei atendendo gente que perdia a visão por causa disso", disse. Segundo ela, outro atrativo foi a possibilidade de ganhar mais dinheiro, já que o salário em Cuba não era suficiente.

"Cheguei à Venezuela ganhando 400 bolívares [R$ 135], mas o salário foi aumentando e, antes de voltar [a Cuba], ganhava 1,4 mil bolívares [R$ 474]".

Juana (nome fictício), 35 anos, é médica em Cuba. Quando recém-formada, deixou marido e a filha de 4 anos na ilha para trabalhar na Venezuela, com o objetivo de se desenvolver profissionalmente, conhecer o mundo e melhorar sua situação econômica. "Não tinha absolutamente nada. Graças à missão, mobiliei toda a minha casa".

Agora, ela tem a chance de voltar a viajar. "O governo me chamou para trabalhar no Brasil, em condições muito melhores do que na Venezuela", disse à BBC.

No caso do Brasil, segundo o projeto inicial, anunciado no início de maio, o governo estudava contratar 6 mil médicos cubanos para trabalhar principalmente em áreas remotas do país. O Conselho Federal de Medicina (CFM), porém, expressou "preocupação" com a possibilidade de médicos estrangeiros atuarem no Brasil sem passar por exames de avaliação, alegando que isso poderia expor a população a "situações de risco".

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