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28/03/2016 - 14h42m

Ouro não será decisivo para melhorar futebol feminino no Brasil

Portal EBC/RFI 
Rafael Ribeiro/Divulgação CBF
Futebol feminino no Brasil precisa avançar em relação à estrutura, organização e preconceito
Futebol feminino no Brasil precisa avançar em relação à estrutura, organização e preconceito

Brasília - Em busca de maior visibilidade e de conquista do público, o futebol feminino no Brasil deve entrar em uma fase mais promissora com o impulso dado pelo Comitê de Reformas do futebol brasileiro. Uma primeira reunião do grupo de trabalho para o futebol feminino foi realizada na quinta-feira (24) sob a coordenação da ex-bandeirinha Ana Paula Oliveira com a participação de vários especialistas e profissionais.

O grupo definiu a sequência de reuniões para levar adiante as propostas de promover o futebol feminino no país e vai atuar no âmbito do Comitê de Reformas do futebol brasileiro instituído em fevereiro pela CBF. Em recente entrevista para a imprensa, o presidente do Comitê, Fábio Feldman, indicou que o desenvolvimento do futebol feminino deve ser desvinculado do masculino. O que significa buscar diferentes patrocínios e apoiadores.

Visto pelas três jogadoras brasileiras que atuam no PSG, o futebol feminino no Brasil ainda precisa avançar muito em relação à estrutura, organização, preconceito e à visão que o público tem da modalidade.

Rosana dos Santos Augusto, meio campista do PSG, que já atuou pelo futebol paulista, pela seleção brasileira e teve experiências nos gramados dos Estados Unidos, Noruega, Áustria e França, compara a experiência internacional com a realidade vivida pelas jogadoras brasileiras: “No Brasil você precisa provar que é o melhor para acreditarem e investirem em você. Esse é o maior obstáculo”, diz.

“A cabeça do brasileiro, em geral, é de um retorno imediato. Ele quer fazer um negócio hoje e ter o retorno depois de amanhã. O futebol feminino é um esporte novo ainda. Ele precisa de um tempo. Na verdade, no Brasil, a gente tem primeiro que provar para depois investir. Os Estados Unidos e o Japão, por exemplo, fizeram o contrário. Eles investiram e depois tiveram o retorno”, avaliou.

A zagueira Erika Cristiano dos Santos, que chegou ao PSG em agosto passado depois de seis anos no Santos, critica a falta de vontade dos cartolas brasileiros. “Existem dirigentes no Brasil que não querem que a modalidade dê certo. Já trabalhei no Santos por seis anos. E me diziam: vou terminar com o futebol feminino porque não tem retorno”, conta. Segundo a jogadora, o pai e o próprio Neymar conseguiram patrocínio para investir no time feminino, mas não houve interesse

“Muitas meninas estão parando e a gente acredita que elas que participaram e viram muitas coisas ruins possam integrar e mudar o pensamento dessas pessoas que não gostam e comece tudo novamente . Não é possível que o Brasil, sendo o país do futebol, mas do ‘masculino’, não vá para frente no feminino”, lamenta.

Com a experiência de atuar em clubes do Brasil, da Europa, Coreia do Sul e também dos Estados Unidos, a atacante Cristiane Rozeiro de Souza, também ressalta o problema do preconceito e da comparação que a equipe feminina sofre.

“No Brasil tem muito preconceito de mulheres exercendo o papel que seria dos homens, o que não deveria acontecer. O futebol masculino tem toda a história deles e eles merecem. É por mérito. Porque nos Estados Unidos existe uma superestrutura e eles não dividem (masculino e feminino)? Tá ali, nivelado, estrutura, trabalho, parte financeira. Porque com o feminino tem que ser diferente? Não. Infelizmente no nosso país é assim e a gente não sabe até quando vai continuar”, afirma.

Comparação com outros países

As três atletas ressaltam um traço cultural do brasileiro que impediria a evolução do futebol feminino no país. “O brasileiro já tem um preconceito com a mulher e não é só no esporte, no futebol feminino, mas em tudo. Isso é difícil mas não vamos abaixar a cabeça. Enquanto a gente puder batalhar e fazer alguma coisa para o futebol feminino crescer, a gente vai fazer”, diz Erika.

“Existe um pouco de preconceito. As pessoas dizem: futebol feminino, não dá. As pessoas não sabem apreciar, elas comparam muito com o masculino. Eu acho que não é muito por aí. As pessoas têm que apreciar o futebol feminino com o que ele tem de bom. E é preciso, de maneira mais ampla, uma valorização maior da mulher no esporte. Falo de mídia, de calendários adequados, de times bem estruturados e montados. Mas tudo isso precisa de investimento. Você tem que provar que pode para investir ”, acrescenta Rosana.

“Fica mais difícil de competir com equipes e seleções que investem desde suas categorias de base. Nos Estados Unidos, 13 milhões de mulheres praticam futebol. No Brasil, a última vez que ouvi eram 400 mil. Como você vai comparar? Certamente você vai ter mais talentos nos EUA que no Brasil”, compara. “Sempre dou exemplo dos Estados Unidos porque são os mais fortes. Eles ganham e investem. Ganham e reinvestem. A gente não depende só de resultados, mas da vontade de muita gente, do investimento de pessoas que não querem investimento imediato”, defende.

“Desde que eu tenho 12 anos, dizem que o futebol feminino vai melhorar. Todo mundo sabe que é preciso investir. Mas quem quer mesmo investir? Eu acho que tem que começar na estrutura mesmo, na base e na apreciação do futebol feminino”, afirma.

A atacante Cristiane, que tem em seu currículo duas medalhas de prata em Olimpíadas (2004 e 2008) e uma de bronze no Mundial diz que as conquistas da seleção feminina ainda não foram suficientes para a evolução da modalidade no país. “Já era para ter evoluído muito. Foram cobradas medalhas e resultados e nós demos. Você ter duas medalhas olímpicas de prata em casa, muita gente diz que é a coisa mais importante. Mas no Brasil, não. Infelizmente para o futebol feminino, não deram tanta importância assim. Já era para ter evoluído muito, com estruturas, com os estados”, diz.

O caso do futebol feminino no Japão é citado como exemplo de estrutura e organização. “O Japão é um exemplo. Elas brigaram mais de seis anos para estruturar e ganhar um título mundial em 2011 e finalista de uma Olimpíada em 2012. Então é preciso tempo, dedicação, estrutura, mas é preciso querer também”, diz Cristiane.

Olimpíadas em casa podem ser vitrine?

Se os resultados já demonstrados pela seleção feminina não deram o impulso necessário para a evolução do esporte, a disputa dos Jogos Olimpícos do Rio podem dar uma visibilidade que a modalidade tanto precisa, a começar por cair no gosto dos torcedores.

“Vai ser uma grande motivação jogar em casa, com o público brasileiro, para o pessoal poder acompanhar, torcer. Para aquelas pessoas que nunca assistiram o futebol feminino ao vivo e terem uma boa impressão. Muitas vezes dizem: futebol feminino é chato, é lento, é isso e aquilo. Muitas vezes, não. Se você for ao estádio você vai o quanto é diferente”, aposta Cristiane.

“A gente sabe o quanto a modalidade precisa de público porque a modalidade ainda é muito frágil no Brasil”, acrescenta. A atleta, de 33 anos, que pode disputar suas últimas Olimpíadas acredita que mais do que uma conquista pessoal, um ouro olímpico seria muito importante para o futuro do futebol feminino no país. “Seria super importante poder encerrar a carreira na seleção com uma medalha olímpica, mas muito mais importante para a modalidade do que para nós mesmas. Poderiam resultar em mudanças. Jogar em casa vai ter uma força maior”, acredita.

Já a atacante Rosana mostra não esconde uma certa prudência com um eventual resultado das Olimpíadas sobre o futuro do exporte no país. “É difícil dizer se o resultado de uma Olimpíada vai mudar o futebol feminino no Brasil. Eu acho que não. Eu não consigo acreditar que somente o resultado da Olimpíada vai poder mudar o histórico do futebol feminino brasileiro”, resume.

“Tomara que com uma medalha de ouro eles não tenham mais desculpas. Mesmo ser o resultado for negativo é aí que você tem que dar continuidade para poder trabalhar e poder brigar lá na frente. Não adianta dar alguma coisa agora e dentro de um ou dois anos ter resultado”, insiste Cristiane.

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