Reiniciar o Brasil II - Pensando na Saúde - Hoje São Paulo
São Paulo, SP, 19/08/2018
 
24/05/2016 - 14h06m

Reiniciar o Brasil II - Pensando na Saúde

Fernando Henrique Schwanke 

Tem certas coisas no Brasil que carecem de sentido. Uma delas é essa mania de as pessoas valorizarem morar em locais de elevada concentração populacional, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e sua região metropolitana.

A tendência nos países desenvolvidos é exatamente o contrário. O ideal de vida perfeita está nos subúrbios e pequenos municípios, onde o stress e a violência são menores, ao mesmo tempo em que as possibilidades de se prosperar são normalmente maiores.

Quem fala isso é alguém que fez o caminho contrário: natural de Porto Alegre, acabei fazendo faculdade em Santa Maria, iniciando minha atividade profissional e Santa Cruz do Sul e depois me radicando em RioPardo-RS, onde somos cerca de 38 mil habitantes.Nesta pequena cidade, construí minha vida e minha família, muito provavelmente de uma forma bem mais feliz e exitosa do que se tivesse ficado na capital gaúcha.

Entretanto, residir em pequenos municípios, não nos isenta de certos problemas, exatamente em função da mania dos profissionais se concentrarem nas grandes e médias cidades.

Talvez, neste contexto, o acesso à saúde seja o entrave mais perceptível. A questão transcende à questão do serviço público, relacionando-se, também, com o que chamarei de preconceito ao interior.

Vamos aos números: de acordo com o Conselho Federal de Medicina, o Brasil tem 430 mil médicos. Já o último dado do Ministério do Trabalho (RAIS) indica 270 mil profissionais da saúde. A diferença entre os dados pode ser atribuída a profissionais liberais sem vínculo empregatício.

Dos 270 mil médicos, formalmente empregados em hospitais, clínicas e outras empresas, 51% residem nos 20 municípios mais populosos do Brasil, os quais concentram 23,24% da população nacional.

No outro extremo, há 4.439 municípios com até 30 mil habitantes que conjuntamente perfazem os mesmos 23,24% da população. Mas nesse caso, esse povo tem para atendê-los apenas 6,38% dos médicos do país.

Mais um detalhe intrigante: das 100 cidades que registram os melhores salários médios para os médicos, 87 tem população inferior ao patamar de 30 mil habitantes.

Tais informações deixam claro que não é por falta de atrativo de remuneração que os profissionais desse ramo de atividade não se radicam nos menores municípios. Há a razão cultural, como nos referimos anteriormente, além de eventual problema de infraestrutura de saúde local, o que não permitiria o exercício pleno da profissão.

Nesse último caso, os moradores do Vale do Rio Pardo se orgulham de dar o exemplo: em plena crise da saúde pública nacional, implementamos e estamos tocando a todo o vapor o hospital regional em Rio Pardo, conquistado a partir da união política regional, espírito coletivo, descentralização, parceria entre as esferas federativas e uma boa gestão, fundamental para se alcançar tal sucesso.

Mas a questão cultural é mais delicada. Como convencer médicos a se mudarem para municípios menores, onde são mais necessários e muito provavelmente viveriam melhor com suas famílias?

Eis uma ideia inicial: anualmente se formam no Brasil cerca de 16.500 médicos, dos quais 43% saídos de faculdades públicas, com os estudos integralmente pagos pelo setor público. Para este e eventualmente os beneficiados com o Financiamento Estudantil (FIES) seria interessante propor um período de contrapartida à sociedade pela educação fornecida. Algo como 2 anos de serviços em hospitais e postos de saúde (devidamente equipados, é claro) nos pequenos e médios municípios, recebendo o piso da categoria como salário. No caso específico do FIES, se ponderaria até o perdão da dívida contraída.

Este modelo significaria algo em torno de 10 mil médicos por ano disponibilizados para as comunidades menos populosas, os quais estariam iniciando sua profissão com as melhores experiências práticas possíveis.

Provavelmente vários desses jovens se integrariam às sociedades locais e permaneceriam no local após o final do período estipulado, prestando bons serviços públicos e eventualmente abrindo consultório próprio.

Fica aqui a mensagem final de um ex-morador de cidade grande: para quem gosta de paz; de andar pelas ruas sem medo de ser assaltado; conhecer verdadeiramente as pessoas a sua volta; e de prosperar, os pequenos e médios municípios são uma excelente alternativa de vida.

*Fernando Henrique Schwanke é prefeito de Rio Pardo - RS

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