São Paulo, SP, 19/12/2018
 
17/10/2016 - 15h00m

Renato Russo ainda é referência musical 20 anos após sua morte

Portal EBC 
Divulgação
Passados 20 anos de sua morte, Renato Russo ainda é a grande referência musical de Brasília
Passados 20 anos de sua morte, Renato Russo ainda é a grande referência musical de Brasília

Brasília - Renato Russo nasceu menos de um mês antes da inauguração de Brasilia. Sua obra está ligada umbilicalmente a "nova" capital. A adolescência e juventude no planalto central foram o extrato da obra de um dos principais nomes do rock nacional.

Polêmico, manteve vivo o espírito punk ao longo de toda sua jornada. Idolatrado por gerações, Renato Russo se faz presente no imaginário da cultura candanga com marcas por toda a cidade.

Renato Manfredini Jr. nasceu no Rio de Janeiro. Ainda criança mudou-se com os pais para Nova York, nos Estados Unidos, onde aprendeu o inglês, língua que abriria as portas para o rock and roll.

Aos 13 anos, veio com a mãe e a irmã para Brasília, acompanhando o pai que era funcionário do Banco do Brasil. Ainda na adolescência, com 15 anos, o futuro astro passou por uma doença rara nos ossos, a epifisiólise, que o deixou com dificuldades de locomoção por dois anos. Esse momento de introspecção contribuiu para uma maior aproximação de Renato com a música e com a literatura.

"Família é importante para todo mundo. Eu sou humano, eu mereço amor, eu mereço respeito. E não preciso ser necessariamente um fascista, para valorizar coisas que são importantíssima na minha vida e na vida de todas as pessoas que vivem em comunidade e querem viver em paz".

Renato Russo, em entrevista para a Rádio Nacional em 1995

A Brasília da juventude de Renato Russo era palco do regime civil-militar que se instalou no país em 1964. Censura, violência e perseguição política eram as marcas da ditadura. Neste cenário, o cantor conheceu o punk rock, movimento de contestação cultural e político, surgido na Inglaterra, que trouxe o princípio do “faça-você-mesmo” para a cena musical com letras incendiárias e simples melodias.

Em uma cidade jovem, com poucas opções de lazer e com cerceamento das liberdades civis, Renato colocou em prática o desejo de tocar e fundou a banda Aborto Elétrico com amigos. E a Colina, moradia dos professores da Universidade de Brasília (UnB), na Asa Norte, foi o local dos primeiros ensaios da banda. A mesma UnB que foi alvo de invasões e perseguições durante toda a ditadura.

“Não vou falar que ele tinha aquele 'sex appeal' todo, porque ele não tinha. Ele tinha uma grande cabeça, muita inteligência e sabia usar aquela inteligência como ninguém. Quando ele não conseguia conquistar alguém pela aparência física, ele conquistava as pessoas na hora de falar e de conversar. Ele me disse uma vez que prometeu pra ele mesmo que seria o número 1, aonde quer que ele se metesse. Mas não pela beleza, mas pelo talento e inteligência que ele tinha.”

Loro Jones - Ex-guitarrista do Capital Inicial

Lago Sul

Com o crescimento da turma da Colina, outros jovens buscaram na música uma forma de expressão. Várias bandas surgiam, como a Escola de Escândalo e a Plebe Rude. Renato, que trabalhava como professor de inglês e estudava jornalismo, se inspirou no filósofo Bertrand Russel e adotou o sobrenome que marcou toda sua carreira: Russo.

Nesse momento, o artista já era uma das lideranças do movimento roqueiro da capital que se apresentava em praças, bares, galpões, como a lanchonete Foods, na Asa Sul, o Gilberto Salomão e o Gilbertinho, no Lago Sul, e também nas cidades-satélites, como Cruzeiro e Taguatingua.

"O que ele tinha noção muito claro era que ele queria ter um banda de rock. E para aquilo funcionar tem que colocar todos na mesma roda e participar. O que ficou é que realmente ele entendeu a mecânica e a função da música".

Dado VIlla-Lobos, em entrevista ao programa Aglomerado.

Parque da Cidade

Com o Aborto Elétrico, Renato Russo escreveu canções que entrariam para história do rock nacional. Tendo Brasília como palco, Renato cantava sobre as inquietudes da juventude, as desigualdades, o amor e a solidão.

Após quatro anos, por diferenças com Fê Lemos, Russo decide por sua saída da banda e o consecutivo fim do Aborto Elétrico. Renato passa por um momento solo como o Trovador Solitário, momento de criação de músicas de sucesso como “Faroeste Caboclo” e “Eduardo e Mônica”.

Mas o cantor ainda sonhava com uma banda de rock e decidiu criar a Legião Urbana, com Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos. O repertório do Aborto Elétrico acaba dividido entre a Legião e a nova banda de Fê Lemos, o Capital Inicial.

Congresso Nacional

Com apoio do amigo Hebert Vianna, que também passou parte da juventude em Brasília e criou no Rio o Paralamas do Sucesso, Renato Russo conquista o primeiro contrato para gravação de uma banda brasiliense. Em 1985 é lançado o álbum “Legião Urbana” que inundou as rádios de todo país com as estrofes de Renato.

Na sequência, vieram sete novos discos, que chegaram a marca de cerca de 10 milhões de cópias. Suas canções tornaram clássicos como “Será”, “Geração Coca-Cola”, “Índios”, “Que País é Esse”, “Eu Sei”, “Meninos e Meninas”, “Perfeição”, “O Descobrimento do Brasil”.

Com o sucesso da Legião, a música dos amigos da colina ganhou projeção em todo país, principalmente com o Capital Inicial e a Plebe Rude, que se apresentam até os dias de hoje.

“Renato é inesquecível. Ele vai ficar na memória não só do Brasil, mas especialmente dessa cidade, de Brasília que ele tanto amou e onde ele foi de certa forma rechaçado, incompreendido, no celebre show do Mané Garrincha.”

Vladimir Carvalho - Cineasta autor de Rock Brasília - Era de Ouro

Mané Garrincha

Renato Russo viveu Brasília por 12 anos, um terço de sua vida. A cidade é peça fundamental em sua obra. Em 1985, ele deixou a cidade rumo ao Rio de Janeiro, sua terra natal, para alavancar a Legião. Mas sua família, seu filho, fruto de um relacionamento com uma fã em 1989, continuaram no Distrito Federal. Simbolicamente, a maior tragédia de sua carreira também ocorreu na cidade.

Em 1988, no estádio Mané Garrincha, hoje transformado em uma arena Fifa, o show que era para ser a consagração da banda, se transformou em violência com mais de 300 feridos. A falta de estrutura, o despraparo da segurança e conflitos entre o público e a banda instalaram o caos no estádio.

Após o fatídico show, as polêmicas em torno de Renato Russo se ampliaram e ele e a Legião não voltaram a se apresentar mais na capital. Mas a própria tragédia em Brasília moldou a lenda de um dos maiores compositores brasileiros.

Espaço Renato Russo

Na década de 1990, Renato Russo resolveu ousar mais. Lançou dois discos solos que mostravam seu ecletismo, “The Stonewall Celebration Concert”, em 1993, “Equilíbrio Distante”, em 1995, além do póstumo “O Último Solo” em 1997.

Renato descobriu que era portador do HIV em 1989. Essa nova condição levou o artista aos extremos, aceitando inclusive um tratamento contra a dependência de drogas. Nos seus últimos momentos, Renato Russo se isolou do mundo, vivendo em depressão, sucumbiu de complicações em decorrência do HIV em 1996. Como os grandes ídolos do rock, Russo deixou a vida cedo, com apenas 36 anos.

Sua obra permanece atual, vendendo discos, regravada por outros intérpretes, contagiando diversas gerações. Em Brasília, seu nome continua lembrado em espaços públicos, como o Centro Cultural Renato Russo, local onde se apresentou em um musical no começo da carreira, que hoje se encontra fechado para reformas.

“Renato era um grande amigo, tenho saudades dele. Não tenho saudades do Renato artista. No palco ele era arrogante, xingava a plateia. Mas como era uma religião, esse lance do Legião Urbana, ele chegava ao ponto que ofendia todo mundo e ficavam batendo palma. Isso não fez bem, Renato não soube lidar muito bem com a fama”.

Philippe Seabra, vocalista da Plebe Rude

Hoje São Paulo

© 2012 - Hoje São Paulo - Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por ConsulteWare e Rogério Carneiro